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O segundo turno já está definido? Parte 2

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No artigo de minha autoria, “O segundo turno já está definido? Falácias da narrativa brasileira”, publicado no site do Todos Com Ciro em 06/04/2022, para refutar a falsa ideia de que a polarização Lula X Bolsonaro já estava decretada para ir ao segundo turno, expus uma avaliação de comparação entre dados de pesquisas eleitorais feitas no mês de abril pelo instituto Datafolha e resultados das eleições presidenciais no primeiro turno. Nessa avaliação, pude demonstrar que, principalmente desde 2010, a ordem dos três primeiros colocados nas pesquisas de abril não se manteve nos resultados das eleições em primeiro turno, seis meses depois.

Apesar disso, transcorridos cinco meses depois desse artigo, ainda que Doria e Leite tenham saído da disputa eleitoral para presidência da República, os três primeiros colocados atualmente seguem na mesma ordem: Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes, havendo apenas alteração nos percentuais de preferência dos eleitores de cada candidato. Selecionando o instituto com maior amostra e menos margem de erro que realizou pesquisa em abril desse ano, o Poderdata entrevistou 3.000 eleitores com margem de 2%, em que os três apareciam com 40%, 35% e 5%, respectivamente. Já em 28-30 de agosto, em pesquisa junto a 3.500 eleitores (mantendo a mesma margem de erro de 2%), o trio elevou seus percentuais para 44%, 36% e 8%. Em número absolutos, Lula foi o que mais cresceu (+4%), seguido de Ciro (+3%) e Bolsonaro (+1%). No entanto, proporcionalmente, Ciro foi o que registrou maior crescimento dos três (60%), ante 10% de Lula e 3% de Bolsonaro. Ou seja, depois de iniciada a campanha eleitoral oficialmente, e após o primeiro debate entre os principais candidatos na TV Band em 28/08/2022, parece ter havido um movimento maior em prol de Ciro Gomes.

Será, então, que mesmo assim podemos afirmar que o segundo turno já está dado entre Lula e Bolsonaro? Afinal, estamos há menos de 30 dias do pleito do dia 02 de outubro e mesmo com uma reação de Ciro Gomes, os defensores da tese da polarização inevitável advogarão que esse crescimento é tardio e há tempo insuficiente para romper com essa tendência apontada desde o ano passado. Será isso mesmo? Vejamos como foi nas eleições presidenciais passadas.

O que as pesquisas previam um mês antes das eleições de 2018

Por meio de uma análise comparativa dos dados de pesquisa realizada pelo IBOPE (antigo IPEC) em setembro de 2018 com os resultados eleitorais após um mês (Tabela 1), com os dados da pesquisa convertidos para votos válidos, ainda que o primeiro colocado seja o mesmo, houve alteração na posição da maioria dos demais candidatos, e registro de variações significativas em comparação aos percentuais obtidos pelos mesmos. A maior discrepância nos votos válidos foi de Haddad, que apontava menos 21,6 pontos percentuais (p.p.), sucedido do próprio Bolsonaro (-17,9 p.p.). Também se ressalta a diferença em relação a Marina (+14,4 p.p.) e Alckmin (+6,8 p.p.). Os demais ficaram em torno de 3 p.p. ou menos. Quanto às colocações, as maiores divergências foram com Cabo Daciolo (6 posições abaixo) e Marina (5 posições acima).

Vale destacar que Haddad aparecia em 5º lugar, tendo terminado em 2º. Com exceção da facada em Bolsonaro em 06/09/2018, um dia após a divulgação dessa pesquisa, e da campanha de convencimento do PT para transferir a preferência por Lula ao Haddad, não há nenhum outro fato relevante que explique essas diferenças. Pode-se inferir que as preferências por Marina e Alckmin migraram para Haddad e Bolsonaro, respectivamente. Mas naquelas eleições, não havia uma polarização explorada pela mídia sistematicamente como hoje.

 

Afinal, para que servem as pesquisas eleitorais?

Tenta-se condicionar há meses os resultados das eleições às pesquisas, dando um papel que elas não têm, de prever o futuro. A melhor forma de se analisar tendências é comparando os resultados das pesquisas entre períodos ou mês a mês. Ainda assim, essa análise não possibilita bater um martelo e afirmar que as eleições estão definidas.

Nas duas últimas eleições presidenciais, tivemos dois “cisnes negros”, a morte de Eduardo Campos em 2014 e a já citada facada em Bolsonaro em 2018. Nada impede que ocorra ou não algum fato novo relevante nos próximos 26 dias. Eleitores mudam suas preferências, seja por “efeito manada” (como o “voto útil”), seja por vontade própria, causada pela campanha, debates ou propostas dos candidatos. Falta pouco tempo, mas é tempo suficiente para tudo acontecer, eventos previsíveis ou não.

Não é por culpa dos institutos de pesquisa, são as características das amostras, afinal, são humanos suscetíveis a opiniões e eventos externos. Não é determinístico. Quando a mídia e formadores de opinião desvirtuam o objetivo das pesquisas eleitorais, conferindo um poder de prever resultados, a responsabilidade recai sobre eles. Merecem receber críticas, pois acabam, intencionalmente ou não, induzindo ou influenciando o comportamento dos agentes. Se há parcialidade, precisa ser transparente, de modo algum tácita. Mas como diria Brizola, o problema são os “interésses” por trás de quem os financia ou apoia.

Até que ponto as pesquisas são confiáveis?

Nunca na história se realizaram tantas pesquisas, principalmente financiadas ou em parceria com instituições financeiras. É passível de questionamento até que ponto essas instituições interferem ou não nos resultados dessas pesquisas. Claro que isso abalaria significativamente a credibilidade dos institutos de pesquisa, podendo comprometer a sua imagem e até a sua continuidade. Ou seja, o risco é muito grande.

É por isso que as pesquisas autofinanciadas são mais sujeitas a esse tipo de risco. Recentemente, o Ministério Público Federal iniciou uma investigação de suspeita de fraude por manipulação de resultados por um estatístico. Apenas em 2022, o profissional teria realizado 62 sondagens nessa modalidade de financiamento. Esse tipo de pesquisa pode ter comprometimento da qualidade, com metodologia menos robusta, o que pode apontar para resultados equivocados e não condizentes com a realidade.

Mês passado, Carlos Montenegro, importante ex-proprietário do IBOPE, confessou que recebeu proposta para alterar os resultados de uma pesquisa por um candidato. O próprio Montenegro já foi acusado de financiar um esquema de corrupção por meio da empresa GRV Solution, no qual foi também sócio.

Em 2010, o empresário foi envolvido em suspeições com relação aos resultados das pesquisas eleitorais feitas pelo IBOPE para presidente naquele ano, com discrepâncias quando comparados com outros institutos, como o Datafolha. A Folha de São Paulo chegou a publicar vários questionamentos a respeito da metodologia empregada pelo IBOPE, como também de outros institutos concorrentes da Datafolha da época, Vox Populi e Sensus, sendo este último criticado por ser financiado por um sindicato trabalhista. Todavia, esse mesmo tipo de questionamento não foi dirigido a pesquisas patrocinadas por entidades sindicais patronais, tais como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), como ocorre há muitas eleições.

Nada leva a crer que os institutos de pesquisa eleitorais sejam facilmente manipuláveis, contudo, por vezes podem ser sujeitos a tentativas de fraude, principalmente aqueles menos expressivos. Não obstante, mais importante do que questionar a idoneidade desses institutos é ter consciência de que as pesquisas não servem para projetar resultados eleitorais, mas tão somente possibilitar um panorama de como se encontram as preferências dos eleitores. Usá-las para indução de que o pleito das atuais eleições esteja previamente determinado, como vem fazendo alguns setores da mídia e formuladores de opinião, é uma prática condenável e que não merece nenhuma credibilidade.

Por isso, eleitores de Ciro Gomes podem manter a esperança enquanto a disputa eleitoral está em jogo, por mais difícil que pareça o atual cenário. Aqui no Rio Grande do Sul, temos uma expressão gauchesca que diz “não tá morto quem peleia”. Ciro segue no páreo, mesmo já tendo adversários que tenham desistido da disputa no meio do caminho. Não se deve subestimar a importância da sua candidatura, uma vez que proporciona que os principais temas de interesse da população (fome, inflação, miséria, economia, educação, saúde, corrupção e outros) sejam debatidos na mídia e se confrontem propostas e projetos. Mesmo sem ainda ter sido eleito, Ciro já vem fazendo bem para o Brasil só na condição de candidato. Imaginem o que ele pode ainda fazer se for aclamado presidente do país.