Novo governo precisa consertar economia para ter sucesso, segundo Ciro

Em entrevista concedida ao Valor Econômico, Ciro Gomes teve a chance de, além de responder perguntas sobre a concepção econômica adotada pelo novo governo, responder sobre caminhos possíveis para resolver a crise fiscal do governo.

Entre questões sobre a nova oposição e o novo governo, o veículo jornalístico também obteve de Ciro projeções para o futuro próximo quanto às estratégias econômicas e políticas que a administração de Jair Bolsonaro pode adotar perante a duradoura crise nacional.

Por isso, o ex-governador do Ceará afirma, por um lado, que o novo governo dependerá de resolver os problemas econômicos nacionais, enquanto afirma, por outro, que o novo governo não está dando atenção às variáveis que carecem de cuidado para a estabilização da economia.

“Paulo Guedes tem interdição preconceituosa que chama de inteligência”

O ex-ministro criticou efusivamente as interdições ideológicas de alguns quadros políticos que chegaram ao poder. Entre eles, Romeu Zema, governador eleito por Minas Gerais, e Paulo Guedes, “guru econômico” de Jair Bolsonaro.

CIRO GOMES: A federação está quebrada. E só quem tem o poder de reestruturar essa quebradeira é a União federal. São coisas audaciosas que não passam na cabeça do Paulo Guedes e ele nem quer ouvir, porque tem interdição preconceituosa que ele chama de inteligência. Por exemplo, qual a grande questão de Minas Gerais? Previdência Social, assim como no Rio Grande do Sul. Não tem reforma da Previdência, que viola direitos adquiridos, que resolva. Tem ‘pensar outros modelos’. Minas Gerais possui ativos, como direitos de lavra, que podem chegar à conta de meio trilhão, ou um quatro de trilhão, mas aí está um ativo ilíquido. Como a Previdência não precisa de um ativo líquido, à vista, a União poderia pegar esse direito de lavra, emitir um lote especial de títulos prefixados, fazer o lastro… Enfim, existem desenhos. Mas precisa discutir, pensar, refletir. Aí o governador [eleito] de Minas [Romeu Zema, do Novo], na mesma linha, acha que a solução é vender o Palácio da Liberdade…

Na sequência, pergunta-se a Ciro sobre a “duração da lua de mel”, que, assume-se, há de ser curta ou inexistente. Ciro acredita, contudo, que o presidente eleito pode ter formas de lidar com eventuais crises de popularidade em seu governo.

Jair Bolsonaro domina intuitivamente ‘universo criptoconservador’

Idealmente, toda a população deveria ter acesso à informação e ao conhecimento que lhe permita discernir entre quais arranjos institucionais lhes beneficiam e quais lhes lesam.

Contudo, as múltiplas cortinas de fumaça que alguns políticos lançam sobre o debate nacional dificultam o acesso de certas informações à população, bem como confundem o grau de importância que carregam.

O presidente eleito é um bom exemplo disso, como acompanhado durante o período eleitoral.

CIRO GOMES: Bolsonaro tem um universo que intuitivamente domina: esse universo ‘criptoconservador’ de costumes. Ele pode se refugiar nisso. Assim, pode extrair seis meses, e propor a redução da maioridade penal, o agravamento da lei de execução penal… isso ganha tempo e cumpre a palavra [de campanha]. Porque o povão é muito mais sábio que os políticos e jornalistas supomos. O povão quer ver você agarrado com o problema, de forma coerente com o que você falou para se eleger. Por exemplo, Escola sem Partido. Isso é uma picaretagem! Imagine a fiscalização que teria de ter para romper com a conquista do Iluminismo, da Renascença, que superou a Idade Média…

Movendo as atenções do povo brasileiro para questões de costume e moral, a economia fica em segundo plano e Jair Bolsonaro é capaz de cumprir alguma parte da agenda com que se comprometeu, ainda que ela tenha efeitos nulos ou negativos quando consideradas todas as variáveis, especialmente se comparadas às variáveis econômicas.

CIRO GOMES: A economia é quem será o definidor [do sucesso do novo governo]. Mas eu não vejo o novo governo nem sequer considerando as questões que tentei dizer na campanha. Tem o tal mercado especulando que vamos crescer 3 pontos [crescimento de 3% no PIB], isso dá uma ilusão, uma propaganda, mas devemos chegar a 1,5%, 1,75%.

A previsão de Ciro para a economia

Perguntado sobre suas expectativas para a economia nos próximos anos, Ciro Gomes deu uma resposta breve e direta, pouco alentadora, mas com dados importantes para se entender o porquê dessas projeções dificilmente serem positivas, dadas as convicções ideológicas do novo governo eleito.

CIRO GOMES: É de medíocre para ruim. Na economia, as expectativas influem mas, quando colidem com as premissas fáticas, as expectativas são falsas.

Primeiro: o consumo das famílias lamentavelmente é o grande motor do crescimento econômico brasileiro, imitando os americanos, que financiam esse consumismo explosivo com emissão de dólares sem efeito inflacionário – mas nós não temos essa peculiaridade. Como está o consumo das famílias aqui? Você tem 63 milhões de pessoas inadimplentes no SPC [Serviço de Proteção ao Crédito] e isso é um problema macroeconômico, nenhuma chance de o mercado, individualmente, resolver. Você tem número de desempregados e de informalidade, portanto, o consumo das famílias muito provavelmente não será muito estimulante. […]

[Segundo], como pode ter lucro se estamos com 30% de capacidade ociosa e com o Brasil se desindustrializando tão selvagemente?

Terceiro: o investimento do setor público. Qual o cenário? Eles se interditaram na campanha dizendo que não tem aumento de tributo. Já falaram em CPMF. Sem aumento de receita, há zero chance de restaurar a condição fiscal brasileira.

E quarto: o desequilíbrio externo. Sem uma política industrial, a crença de que o Brasil vai pagar eletroeletrônico, bens de capital, informática e química fina com feijão, milho, boi e soja in natura é completamente ilusória.

Lembrado pelo entrevistador sobre suas afirmações de que novo governo não conseguirá entregar soluções rápidas para a economia a seu eleitor médio, Ciro reiterou: “não [vai], mesmo”.

A entrevista completa pode ser conferida no site do Valor Econômico.

 

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