Frente de esquerda: mas “qual” esquerda?

Corre nas redes – o espaço onde os debates político e eleitoral se recusam a deixarem de existir mesmo fora de períodos eleitorais – discussões sobre a viabilidade e a legitimidade de uma frente de esquerda, de uma frente ampla ou, ainda, em certas palavras, de uma “frente ampla de esquerda”.

Por um lado, argue-se: “uma frente não pode ser de esquerda sem o Partido dos Trabalhadores”.

Por outro lado, há quem afirme que uma frente que inclua o PT é incapaz de ampliar o alcance do campo progressista.

Para compreendermos os argumentos e a estratégia defendida por ambos os posicionamentos, é preciso também compreender a conjuntura em que estão inseridos o Brasil e a esquerda brasileira (ou o “campo progressista”).

Tentemos entender a frente de esquerda, em princípio.

Frente de esquerda: PT

Hoje, o PT busca a manutenção da polarização com o atual presidente Jair Bolsonaro.

O presidente faz o mesmo: a qualquer momento em que possa, ameaça com “a volta do PT” o aumento de sua rejeição ou sua eventual não-reeleição.

Portanto, os dois polos postos – ainda que não sejam opostos quando se trata da concepção do Estado, onde reside o maior problema de tal polarização – sustentam-se um na rejeição do outro.

Uma “frente de esquerda”, hoje, como idealizada por seus defensores, reuniria, à primeira hora os partidos PT, PSB, PCdoB, PSOL e PDT.

O PT, munido do argumento de que é “o maior partido de esquerda da América Latina” e “o partido com mais cadeiras na Câmara de Deputados”, exige dos demais partidos alinhamento automático e adesão irrestrita ao partido como o líder do bloco.

Não aderindo à agenda petista, o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças embarcam na cruzada de expurgar do que chamam de “esquerda” eventuais adversários e rivais do campo, como acontece com Ciro Gomes, alvo constante de blogs alimentados pela ideologia petista.

O PT ignora pelo menos duas informações: a rejeição de Lula e o fato de que o pior candidato da história foi eleito democraticamente simplesmente por se colocar como “a mais viável alternativa ao PT”.

Sustentado no antipetismo, o bolsonarismo de hoje busca se afirmar pela negação do PT, tendo ecoada sua estratégia da parte dos petistas, que também buscam se afirmar pela negação do presidente a nível nacional.

Por um lado, petistas empurram dissidentes ao que definem como “direita”; por outro, bolsonaristas empurram dissidentes ao que definem como “esquerda” ou “petismo”.

Nenhuma das partes está preocupada em discutir a natureza do Estado nacional, e as maiores provas são as passagens de ambas as partes pelo poder.

Frente de esquerda: PDT e PSB

O PDT e o PSB são partidos que não estão automaticamente alinhados ao PT e cujas existências datam desde antes da fundação do próprio PT.

O PDT é herdeiro do velho PTB (fundado em 1945), tendo sido fundado por Leonel Brizola em 1979, após Ivete Vargas vencer a disputa com Brizola pelo antigo nome.

O PSB existe desde 1947, tendo uma história que dialogou com históricas lideranças, incluindo o ex-presidente Jânio Quadros (de quem o partido divergia essencialmente), e que teve entre seus mais ilustres quadros o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes.

O PT existe desde 1980, e sua retórica desde então tenta apagar da história as esquerdas pré-petistas e igualá-las à direita.

Hoje, PDT tenta construir uma alternativa ao petismo pela esquerda, enquanto o PSB ora apoia os petistas, ora faz-lhes oposição, de acordo com a conjuntura.

Ambos precedem o petismo pela esquerda, atestando que a presença do PT em uma frente à esquerda não se trata de condição indissociável da construção de uma frente.

Frente de esquerda: polarização com qual esquerda?

A polarização legitimada por uma frente de esquerda de hegemonia afirmada pelo petismo atual é pouco propositiva e sustentada na rejeição que um polo nutre pelo outro.

Trata-se de uma leitura ingênua ou mal intencionada a de que é possível polarizar com o bolsonarismo e conquistar bons resultados para a esquerda nacional a partir de tal estratégia.

Primeiro, porque a polarização atual é vazia.

Ela não confronta noções econômicas nacionais entre um partido e outro, mas o mero gerenciamento de um sistema econômico estabelecido – que almeja determinados níveis de inflação sem considerar níveis de emprego, por exemplo.

O PT governou o país por 13 anos, com a macroeconomia estabelecida pelos mandatos do tucano FHC inconteste.

Segundo, porque, hoje, o objetivo político principal do PT é a sobrevivência. O partido não está mais preocupado em disputar votos a fim de conquistar uma vitória eleitoral nacional.

Em 2018 a estratégia petista foi a de conquistar o maior número de cadeiras na Câmara de Deputados.

Nesse sentido, sua estratégia foi um sucesso. O problema é que do outro lado elegeu-se o pior candidato da história democrática do Brasil.

Liderada pelos atuais comandantes do PT, quando se consideraram os impactos nacionais dessa estratégia, ou seja, a eleição de um entreguista reacionário, despreparado e comprometido com interesses econômicos estrangeiros?

Hoje, como defendida, uma frente de esquerda com o PT entra em campo para inevitavelmente perder e reeleger o bolsonarismo – ou seus intérpretes.

O que deve defender uma frente de esquerda é a polarização que ponha a centralidade do debate no Brasil e no papel que o Estado deve cumprir perante os desafios nacionais (que são incontáveis).

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