AS “FAKE NEWS” DE LULA E O PT SOBRE CIRO GOMES

Muito recentemente, o uso do termo “fake news” vem ganhando cada vez mais elevadas e crescentes proporções, sobretudo no campo da política (nesse caso, na politicagem). São políticos e suas equipes (ou consultorias) criando mentiras sobre seus adversários e até mesmo sobre si próprios. É o vale-tudo pelo poder, inclusive agindo contra a ética e a moral. E não respeitam ideologia.

Aparentemente pertencentes ao mesmo espectro ideológico, a esquerda e o progressismo, Ciro e Lula/PT vêm trocando acusações e críticas, porém, enquanto o primeiro baseia seus argumentos em fatos, os segundos apelam para distorções e inverdades. Antes de analisar duas da série de falácias criadas pelos petistas, propõe-se sinteticamente passar por alguns conceitos relevantes para ajudar a desmascará-las.

A ILUSÃO DA VERDADE
Todos conhecem bem a máxima atribuída a Joseph Goebbels, braço direito de Hitler: “basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade”. Essa é uma técnica largamente utilizada na propaganda política, que os psicólogos chamam de “ilusão da verdade”. Esse fenômeno ocorre quando tendemos a acreditar que uma afirmação é verdadeira porque já a escutamos anteriormente, parecendo mais familiar.
ATALHOS MENTAIS: HEURÍSTICAS
Nossa mente pode nos induzir a termos esse tipo de comportamento, porque ela tende a preferir pegar atalhos (heurísticas), exigindo menos esforço para tomarmos uma decisão, por vezes, com base no nosso instinto. As heurísticas, também conhecidas como regras de bolso, acontecem quando somos influenciados a tomar uma decisão somente sustentada pelas informações disponíveis, quantidade de registros de um determinado evento no nosso meio, da nossa memória e capacidade de associação ou outras limitações cognitivasi.

HERÍSTICAS DE DISPONIBILIDADE E DO AFETO
Como bem exemplifica Mariana Flores Pinto: “Determinadas doenças, eventos naturais como terremotos e enchentes e mesmo ganhar na loteria parecerão mais prováveis se conhecemos alguém que já passou por essas experiências”. Um exemplo é com relação recentemente à COVID-19. Quando se conhece alguém próximo que foi contaminado, é mais comum sentir que parece aumentar a probabilidade de também ser infectado.

Os “pais” da Economia Comportamental, Tversky e Kahneman, em seu seminal artigo de 1974, descreviam situações como essas de heurística de disponibilidade. Para simbolizar essa heurística, Kahneman usa o acrônimo WYSIATI, do inglês “What You See Is All There is”, que em português, pode ser traduzido como “o que você vê é tudo que há”.
Outra heurística importante para o nosso tema em tela, o que será esclarecido mais a frente, é a heurística do afeto. Segundo Kahneman (2012, p. 133), tal conceito, desenvolvido pelo psicólogo Paul Slovic, se aplica quando “as pessoas deixam que suas simpatias e antipatias determinem as suas crenças acerca do mundo”. Neste caso, ao invés de consultarem a mente antes de um julgamento ou tomada de decisão, as pessoas preferem acessar as suas emoções. Como cantarolava Renato Russo, “quem um dia irá dizer que não existe razão, nas coisas feitas pelo coração”. Claro que a situação relatada pelo músico nessa canção é no campo das ações, e não na emissão de uma opinião. É exatamente esse o problema que aponta Kahneman (2012, p. 177): “A heurística do afeto é um caso de substituição, em que a resposta para uma pergunta fácil (Como eu me sinto em relação a isso?) serve como resposta para uma questão muito mais difícil (O que penso sobre isso?)”.

FALÁCIA Nº 1: CIRO AJUDOU BOLSONARO A SE ELEGER EM 2018
Em artigo publicado no Todos Com Ciro (TCC), eu já havia refutado a importância da viagem de Ciro Gomes a Paris, após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. Mas como, reiteradamente, petistas insistem em propalar falsamente viagem de Ciro como determinante dos resultados das eleições no segundo turno, vale a pena recapitular e complementar com outros argumentos.

A ELEVADA MIGRAÇÃO DE VOTOS DE CIRO PARA HADDAD
Primeiramente, conforme demonstrado em artigo do Cafezinho, nenhum candidato transferiu mais votos para Haddad no segundo turno como Ciro Gomes (79,2% dos votos recebidos). Isso se explica por diferentes razões. Os eleitores de Ciro se identificam muito mais com suas ideias e projetos do que com sua própria pessoa. É uma adesão e coesão programática. Dentre as duas opções do segundo turno, o programa de Haddad era o que mais se assemelhava às propostas de Ciro. Então era natural que o percentual de transferência seria alto. Segundo, Bolsonaro foi o candidato com maior nível de rejeição (chegou a 44%) no primeiro turno, e grande parte dos eleitores de Ciro faziam parte desse grupo, como se comprovou com a elevada migração de votos para Haddad no segundo turno.

A FORTE CONCENTRAÇÃO DE VOTOS NA DIREITA NO PRIMEIRO TURNO
Outro ponto importante é a distribuição de votos no primeiro turno. Em uma thread (fio) do Twitter, procurei explicar o grande desafio de Haddad conseguir angariar votos para virar o jogo contra Bolsonaro no segundo turno. Na tabela abaixo reproduzida do fio, percebe-se primeiro que a Direita obteve a maioria dos votos válidos no primeiro turno (55,33%), ante apenas 42,41% da Esquerda. Não é mera coincidência que o percentual de votos válidos de Bolsonaro no segundo turno (55,13%) se assemelha significativamente ao montante obtido pela Direita do primeiro turno.

Um ponto importante é o forte desempenho de Bolsonaro no primeiro turno, em que recebeu cerca de 49,3 milhões de votos, representando 33,45% dos votos totais e 46,03% dos votos válidos. Essa expressiva votação chegou a ser superior ao que Haddad conseguiu obter no segundo turno, com apenas 47,0 milhões de votos, perfazendo tão somente 31,93% dos votos totais e 44,87% dos votos válidos. Isso mostra como Bolsonaro estava bem a frente de Haddad e seu favoritismo para ganhar no segundo turno.

Ainda assim, há de se destacar que Haddad recebeu em termos absolutos maior migração de votos do primeiro turno (+ 15,7 milhões) do que Bolsonaro (+ 8,5 milhões). Todavia, ele precisava ter recebido mais 26,5 milhões no total, quase dobrado o seu desempenho no primeiro turno, quando obteve apenas 31,3 milhões de votos. Ou seja, faltaram ainda 10,8 milhões de votos para vencer Bolsonaro. Como Ciro obteve 13,3 milhões de votos no primeiro turno, e a priori 79,2% (10,5 milhões) migraram para Haddad, mesmo que tivessem migrado 100%, isso só agregaria mais 2,8 milhões de votos para o petista no segundo turno, insuficiente para superar o então candidato do PSL.
Logo, está mais do que refutada essa falácia de que Ciro tenha comprometido a vitória de Haddad sobre Bolsonaro. Falta o PT assumir que a estratégia adotada para lançar o ex-ministro da Educação de Lula à candidatura presidencial tenha sido insuficiente ou inadequada. Fatores como a falta de uma autocrítica mais contundente e tempestiva e o lançamento tardio do nome de Haddad foram muito mais preponderantes.

Em entrevista dada no Programa Conversa com Bial em 23/08/2021, Haddad rebateu as críticas que Ciro fez quando foi entrevistado no mesmo programa. Porém, ao fazê-lo, deu uma declaração no mínimo duvidosa: “políticos que cospem no prato que comeram, que não têm coerência na sua trajetória, que mudam de lado, eu não consigo respeitar. (…) Isso não significa não poder mudar de opinião, desde que você explique”. Supostamente, Haddad estaria dirigindo essa acusação a Ciro Gomes. Vamos aos fatos.

Primeiro, mesmo às vésperas das eleições de 2018, Ciro afirmou que tinha gratidão a Lula em visita ao Piauí. Segundo, contrariamente a Haddad, Ciro deve pouquíssimo de suas conquistas ao líder petista. Como por demais conhecida a sua trajetória, Ciro Gomes foi deputado estadual, prefeito e governador do Ceará, depois ministro da Fazenda no governo Itamar Franco em 1994, candidato à presidência em 1998 e 2002, sem nunca ter recebido qualquer apoio de Lula nas suas conquistas e disputas eleitorais. A única exceção foi o cargo de Ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula. Mas tal posição está longe de ser considerada o seu auge na política.
Muito diferentemente de Haddad, que só foi prefeito de São Paulo, ministro da Educação e candidato à presidência graças integralmente ao apoio de Lula, a grande maior parte da trajetória política de Ciro Gomes foi sem ter ganho qualquer ajuda do líder petista. Portanto, não há o que se falar sobre uma suposta ingratidão de Ciro a Lula.

HEURÍSTICAS PETISTAS
A propagação dessas e outras fake news do PT sobre Ciro se deve, pelo menos parcialmente, às duas heurísticas explicadas no começo desse artigo. Muitos sites e blogs de apoio ao partido (Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e atualmente O Cafezinho) são a principal, senão única, fonte de informação de vários simpatizantes e militantes lulopetistas. Nesse caso, as postagens desses militantes estão restritas à heurística de disponibilidade. Isso não é exclusivo do PT, o mesmo ocorre com os fiéis apoiadores de Bolsonaro. Não é por acaso que esta seja uma das tantas semelhanças entre os dois grupos.

Outro ponto é que muitos desses militantes ou simpatizantes, de ambos os grupos, demonstram uma predileção e admiração pelos seus “políticos de estimação”, Lula e Bolsonaro, por razões meramente emotivas. Os dois guardam, inclusive, algumas semelhanças, cada um ao seu próprio jeito, como o forte carisma, o vocabulário fácil, a simplicidade ao se vestir e a associação de sua imagem a esportes populares (futebol). Abusam de sua liderança calcada nesse carisma e no populismo para conquistar admiradores. Ou seja, reforçam fatores que despertam a heurística do afeto nos seus fiéis apoiadores.

O DIFERENCIAL DA MILITÂNCIA CIRISTA
Diferentemente dos dois grupos, bolsonaristas e lulopetistas, a militância cirista, também carinhosamente chamada de Turma Boa, se diferencia de ambos pela identificação mais atrelada às ideias e projetos apresentados por Ciro Gomes, reunidos no seu último livro, “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”. O próprio site Todos Com Ciro reúne os posicionamentos de Ciro Gomes por temas relacionados ao seu Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND). É uma demonstração de uma militância instruída, que pesquisa e debate ideias.

Não que esta também não nutra admiração e carinho pela figura de Ciro Gomes, mas se esse não tivesse a capacidade de arguição e o alto nível de conhecimento e experiência, bem como um projeto para o país, certamente não despertaria os mesmos sentimentos nos seus militantes. Como dito acima, é uma adesão e coesão programática. Também por causa disso que os ciristas procuram rejeitar notícias falsas, recorrendo ao uso de bons argumentos para debater com seus adversários. Uma prova disso é a seção do site Todos com Ciro sobre fake news. É uma militância que dá o exemplo. Como bem disse Ciro na live que fez com a Livraria Cultura no dia 31/08/2021, do contrário,“ vira (…) culto à personalidade despolitizada e apologia da ignorância, da mentira e da mistificação personalista”.

REFERÊNCIAS
TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel (1974). Judgment under uncertainty: heuristics and biases. Science, 185 (4157), 11241131. A versão em português desse artigo é reproduzida também em: KAHNEMAN, Daniel (2012). Rápido e Devagar: duas formas de pensar; tradução Cássio de Arantes Leite. Objetiva.
GOMES, Ciro (2020). Projeto Nacional: o dever da esperança. Editora Leya.