Ciro no Conexão Xangai (2): a elite brasileira e o Projeto Nacional

No último domingo (6), Ciro Gomes deu uma de suas melhores entrevistas. Uma verdadeira aula de Brasil. A conversa, que durou mais de duas horas, pode ser resumida em aproximadamente 35 páginas de conversas inspiradoras sobre os entraves e caminhos para o país que sonhamos.

Em homenagem a essa entrevista, estamos dando continuidade a uma série de publicações destacando cada uma das participações de Ciro no Conexão Xangai, programa apresentado por André Roncaglia, Paulo Gala, Elias Jabbour e Uallace Moreira. Esta publicação é a parte 2 deste documento.

[Parte 2] A ELITE BRASILEIRA E O PROJETO NACIONAL

FAUSTO OLIVEIRA:

Felizmente, a ideia de projeto nacional voltou para o debate brasileiro. Projetos nacionais são uma pré-condição para o desenvolvimento de países que precisam superar condições muito diferentes de competitividade das suas economias e também de bem-estar da sua sociedade. Japão fez, Coréia fez, China tá dando um banho de projeto de desenvolvimento, Taiwan também fez, todos os países que precisaram superar o atraso estrutural, fizeram projetos nacionais. E o Brasil tem direito a fazer um projeto nacional.

O Brasil, mais do que isso, tem uma obrigação histórica de fazer um projeto nacional para se desenvolver. Projetos nacionais não são sempre iguais, é evidente que se precisa achar a cara brasileira de um projeto nacional, um projeto nacional brasileiro. Mas isso de termos, hoje, um debate que inclui a ideia de projeto nacional deve ser saudado por todos nós como um avanço, rumo à superação da pobreza, à superação do subdesenvolvimento no Brasil.

CIRO GOMES:

Veja, eu sustento pra discutir que pouco importa a retórica, porque esse é o território da propaganda ideológica. Não há nenhuma experiência civilizatória exitosa, na história da humanidade. Você vai encontrar em cem por cento dos casos um Estado forte, muito forte, apurado essa fortaleza na capacidade de intervir na economia (sob o ponto de vista da taxa de formação bruta de capital, de financiamento da infraestrutura, de financiamento da aceleração tecnológica). O pretexto às vezes é a guerra, a defesa. O pretexto é a corrida área espacial, que é o caso norte-americano. Mas você vai encontrar também, instantaneamente, o empresariado ali, o que é uma homenagem que nós fazemos aos liberais. Eu, não dispenso o papel central que o empresariado, o empreendedor em todos os experimentos exitosos da humanidade.

A China é um exemplo mais recente, não é? Coreia do Sul, lá atrás quando o general MacArthur introduz a modernização do Japão Feudal. Ele faz a reforma agrária no Japão e ele cria o Ministério da indústria e do Trabalho, que é de onde vem todo o esforço de superação do atraso japonês para se tornar rapidamente, muito rapidamente, sem nenhum dos elementos centrais da da tradição de riqueza, que é um solo generoso.

Eles não têm um grama de minério de ferro, eles não têm uma gota de petróleo e pra plantar ali é uma dificuldade. Eles, por inteligência, sofisticadamente, tecnologizada por uma educação que também foi fundada nessas bases, embora haja milenar tradição cultural do Japão, predispôs a sociedade japonesa a isso. E o investimento em gente. Então, são esses três elementos, quer dizer, em coordenação.

Eu lamento dizer, como democrata, que pra mim só presta se for em regime democrático, mas nem sequer democracia foi essencial. Você vai encontrar experimentos de êxito civilizatórios, não democráticos, pelo menos, do ponto de vista da o modo judaico-cristão ocidental de entendê-lo, não é? Os chineses não compreendem isso e a gente não pode olhar os chineses com os olhos da nossa tradição. Imagina você ter um ambiente liberal com um bilhão e trezentos milhões de boca para alimentar, né? Um por cento de miséria a gente já viu aí o que que é a população do Brasil passando fome.

Então, eles não têm essa aspiração e a gente tem que compreender tudo isso, mas o fato é que, estado forte, empresariado, convergente, com consenso ou hegemonia estabelecida. E uma universidade pra ficar na cabeça do processo de investimento em gente, são centrais do desenvolvimento.

E volto para homenagear o nosso professor com quem eu quero estar logo mais, não é? Desenvolvimento industrial. A Europa está vivendo sua realidade. É um processo de desindustrialização substituído por um serviço sofisticado, agregado a uma indústria, a indústria tradicional não responde mais à questão do emprego e isso parece ser realidade para nós, mas não é. O Brasil tem uma agenda do século dezenove por cumprir: reforma agrária. Uma agenda do século vinte, por cumprir: indústria, indústria, indústria, indústria. Sem indústria nós não vamos pagar a conta.

Porque a aspiração de consumo do nosso povo refere-se a um padrão que nós estamos cada vez mais distante de conseguir oferecer por tecnologia, por financiamento, por falta de escala e a conta não fecha, sabe? Ciclicamente, as commodities bombam, a gente paga a conta de um de um de um de um ciclo consumista, popularizante, etcétera, depois quebra. Porque o buraco na conta do de manufaturados aparece, deprecia a nossa moeda. O filme é velho. E vai começar de novo agora. E a agenda do século XXI, para não esquecer, que é a economia do conhecimento. Nós temos que tocar as três agendas simultaneamente.

PAULO GALA:

Como que a gente coloca a elite brasileira junto nesse barco do desenvolvimento econômico, do projeto nacional de desenvolvimento? Porque quando a gente olha pra elite americana, pra elite coreana, pra elite japonesa, pra elite alemã, evidente que tem uma elite lá que é bilionária, que tem muito dinheiro, que tem o poder. Só que todas essas elites tão embarcadas num projeto industrial, tecnológico, num projeto de sofisticação produtiva. Se você pegar, por exemplo, a Coréia, eles têm uma elite bilionária. Mesmo a China do Elias Jabbour tem muitos bilionários, tem uma elite poderosíssima que agora começa, inclusive, a se chocar com o partido comunista. O Partido Comunista tá meio com a pulga atrás da orelha, porque a China é o país que mais cria bilionários do mundo.

E, no Brasil, a gente também tem essa elite, que é poderosíssima, que é bilionária, só que ela não embarca num projeto industrial, tecnológico, por vários motivos, talvez o principal, é porque ele é muito arriscado. É muito arriscado você se lançar no desenvolvimento tecnológico, de novas empresas, novas marcas, conquistar o mundo, inserir a economia de uma maneira produtivamente integrada com o resto do mundo. Não é um negócio trivial. É muito mais fácil pra elite ficar retraída ali no patrimônio, no juros, na renda, nos imóveis e tá tudo certo.

Mas, por outro lado, não existe um projeto nacional possível sem que essa elite entre no barco também. Eu não acho que a elite brasileira seja contra o progresso, contra o investimento industrial, contra o avanço tecnológico. Eu acho que ela tem medo, que considera os são riscos enormes. E pela conta de custo versus benefício deles, falam: não, vamos ficar lá no condado da Faria Lima, os nossos imóveis estão se valorizando, as terras estão bombando, o preço dos imóveis subiu, estamos vendendo, tá tudo certo. Então é o que eu queria te ouvir, como é que você reflete sobre essas coisas, porque não há ninguém no Brasil que saiba mais de tudo isso que eu estou falando. Eu queria mesmo ver a sua reação.

CIRO GOMES:

Essa é uma questão que tem que ser colocada centralmente. É uma questão que frequentou os brasileiros dos anos 1930. Só pra gente não achar que estamos aí numa situação nova, original, embora seja uma situação bastante complexa e difícil. Mas é bom recuperar lá atrás pra que a gente saiba que há caminhos. Não sem muita dificuldade e risco, isso é uma inerência, porque conservar é mais fácil, né? Quem quer mudar, vai correr riscos.

A primeira grande questão é a afirmação de uma hegemonia moral e intelectual. Hoje, esta hegemonia moral e intelectual está perdida. Mas a hegemonia do outro lado também está perdida. É um fim de ciclo histórico, é o que eu tô pensando que tá acontecendo no mundo e no Brasil, especialmente. E o que que eu tô querendo dizer?

A crise na Europa fez nascer a concepção neoliberal. E entre nós aqui, ela foi tão toscamente aplicada, que nem o mais ortodoxo neoliberal, se reconhece dessa maluquice que se faz no Brasil. E eu vou chegar ao ponto, que é basicamente juro alto. Quarenta anos de juro, exorbitantemente alto, acima da rentabilidade média dos negócios. Essa é a chave pragmática de solução dessa questão traumática que você está fazendo. Mas vamos tentar assentar isso na história.

Quando os ingleses, especialmente, perceberam que estavam começando a perder a competição nos seus mercados europeus. E em terceiros mercados, para um novo produto industrial moderno, sofisticado tecnologicamente, que vinha do oriente de forma cada vez maior de volumes, desonerado da cunha fiscal do welfare state. Eles tiveram a intuição de que precisavam restaurar a competitividade sistêmica e o caminho foi tentar diminuir, as assimetrias competitivas com esse produto que estava chegando e ganhando territórios de mercados. Então, a ideia do estado mínimo é coerente com isso, a ideia de avivotar salários, a partir do porrete na cabeça dos dos mineiros de carvão, que a Margareth Thatcher fez.

E eu digo sempre, para encaminhar a discussão e assentar a minha crítica ao neoliberalismo, em ambiente racional e não passional. Porque o neoliberalismo não é um palavrão, é um marco de economia política vitorioso, de forma absolutamente extraordinária a ponto de um idiota ter sido celebrado como um grande intelectual de vanguarda, que é o Fukuyama que eu conheci lá Yale, anunciando o fim da história.

E o fim da história é o quê? O fim da história é: vencido o embate da concepção soviética do marxismo leninismo com o capitalismo; e vencedores os capitalistas, a história acabou. Trata-se agora da humanidade que ainda não entendeu, copiar as instituições vitoriosas do Atlântico Norte. Isso vem como uma onda, né? E pegamos aqui coisa muito tosca, o Collor, por exemplo, ouviu o galo cantar, não sabe onde, e sentou o pé. E o Fernando Henrique que é um problema do esquerdista que perdeu a crença.

Normalmente quando o cara é esquerdista e ele perde a crença, ele perde o chão do manualzinho marxista leninista, que era simples de praticar e tal, era uma questão até de fatalidade da história. Aí a esquerda brasileira virou cínica. Os principais protagonistas da esquerda brasileira, inclusive com todo respeito ao meu amigo, Lula. Hoje nós estamos em um embate pesado mas eu não deixo de considerá-lo no campo das amizades. Entraram nessa de: vamos imitar a europa.

Ou a gente se livra disso e tenta construir, para além de um projeto nacional, nós temos que construir um pensamento autônomo. Eu admiro muito vocês por isso. Sabe qual foi o último intelectual, sob ponto de vista da economia, com quem eu tive a honra e o privilégio de conversar e que morreu muito frustrado, com medo de que o Brasil não fosse mais uma nação e sim um grande acampamento? Celso Furtado. E o Celso Furtado é de esquerda porque a ditadura era idiota completa. O Celso Furtado era um cara inteligente, lúcido, extraordinariamente patriota, amava o Brasil, queria emancipar o nosso povo e tinha caminhos nada revolucionários pra ficar aqui na negação dessa estupidez fascista que governa o debate brasileiro.

Como que a gente ganha essa nova hegemonia moral e intelectual? Esta fórmula de bolo neoliberal fracassou, não tem mais quem sustente. Sabe qual é a último boboca que defende isso? É o Paulo Guedes. E seus, e seus pretensos sucessores, sabe? Marco Lisboa, essa turma aí do economista de televisão, que desconsideram as obviedades da vida real, não conhece o Brasil.

O Larry Summers, que foi meu contemporâneo, quando eu fui Ministro da Fazenda. O secretário de finanças dos Estados Unidos, era contra o Real. Ele veio dar esporro no Pedro Malan, lá em uma reunião do FMI em Madri, e eu troquei do inglês para português pra dizer que quem manda no Brasil somos nós, ele [falou] “Pardon me?”. Hoje, o Larry Summers, está teorizando sobre uma coisa que nem eu tô convencido, que é essa nova teoria monetária, a ideia de que você pode transformar a emissão monetária num mecanismo estrutural de financiamento. Agora os sinais de inflação dos Estados Unidos talvez encerrem essa brincadeira. Na verdade, são todos desertores da mitologia neoliberal que nos foi vendida como ciência boa, sendo ideologia de quinta categoria.

O livro que publiquei em 1995 [O Próximo Passo], era a intuição a partir da seguinte premissa: a economia move riquezas, move finanças, mas move pessoas. Aí, qual é a lógica liberal? Eu destruo as fronteiras nacionais para circulação de riquezas, materiais e de finanças e restringe-o gravemente a circulação de pessoas. Isso não é liberal, isso não é propriamente o Adam Smith imaginou. E a grande pergunta que eu fazia naquele livro é, tá bom, se a gente liberalizar os fluxos de migração, o que que vai acontecer? As hordas dos, dos nômades, dos bárbaros vão destruir o centro dinâmico da economia do mundo, ou o dinamismo econômico do mundo vai se espalhar? Evidentemente que os bárbaros do centro dinâmico.

Isso é dramaticamente verdade hoje com as disrupturas tecnológicas, com a complexidade que tomaram em que a contradição agora tá lá na Califórnia. Em que do outro lado da rua está o Google, e aqui do outro lado um McDonald’s com um migrante que que não tem jornada de trabalho, não tem salário fixo. Aí o cara ganha um milhão de dólares por um site qualquer com um algoritmo. E do outro lado da rua tá um mexicano, migrante, ilegal, ganhando um salário vivo que não paga nem sequer comida dele. Está acontecendo lá na Califórnia hoje, está acontecendo no centro-sul da Itália, no Brasil, então, sob o ponto de vista mundo, nós estamos ficando perigosamente e desastradamente para trás.

Ganhar essa hegemonia moral, com paciência, com humildade, com exemplo, exemplo, exemplo, exemplo. Entretanto, isso vai demorar um século pra gente ganhar, por quê? Porque a disfuncionalidade brasileira, para além da mitologia ideológica, é o rentismo. Ninguém neoliberal no mundo se reconhece nesta loucura que se pratica no Brasil há quarenta, trinta e cinco anos. Eu ando por aí no circuito universitário internacional, e quando eu digo que a taxa de juros no Brasil, para descontar uma duplicata hoje é de quarenta e dois por cento, eles dizem: isso aqui é um erro de tradução. Quarenta e dois por cento ao ano, é isso, quarenta e dois por cento. Mas meu irmão, o cheque especial, que é uma modalidade, é duzentos e cinquenta por cento. O cartão de crédito é de quatrocentos por cento. Isso, isso simplesmente não existe. E esta aberração, Paulo, é que criou essa disfuncionalidade no Brasil. Por quê?

Em 1980, vocês conhecem isso melhor do que eu. Quase 35% da produção brasileira, se depender do conceito de indústria, era industrial [se a gente botar aí a expressão mineral como indústria, trinta e cinco por cento]. Hoje é 9%. E aí vamos pra caricatura? Quem é o presidente da FIESP de hoje? Ex-industriais falidos aplaudiram todas essas políticas econômicas que destruíram seus próprios negócios. O presidente da CNI é um ex-industrial falido. Eu digo isso, não é com nenhum prazer, eu digo com muita dor. E eles verbalizam, é aquela história do oprimido replicando a lógica do opressor. O cara destruiu o negócio dele. Só que ele é pobre na [pessoa] jurídica, quebrou na [pessoa] jurídica e é rico na renda fixa. Essa é a distorção.

E nós estamos fechando a janela de oportunidade que se abriu em 2008, com a taxa de juros internacional vindo a zero e o arbitramento da taxa interna do Brasil lá fora ficou mais simples nas últimas décadas. Estamos fechando a porta porque não vimos. A esquerda no poder não viu.

Outro dia eu tive uma conversa com economistas, a maior parte mais conservadora e eu estava dizendo pra eles: olha, desculpa, eu não sou economista. Então, as heresias que eu falo são perdoáveis, mas eu sou uma certa testemunha privilegiada. Então, como é que se forma a taxa de juros? [Eles diziam] Não, a taxa de juros é uma consequência da expansão da moeda e não sei o que. [Eu respondi] Pois eu já vi uma taxa de juros ser formada de outro jeito. E como é que eu vi? Ministro da Fazenda, nas antecedências do real, coordenador do grupo de trabalho que era Pérsio, André, Bacha. Eu tinha montado esse grupo para preparar a candidatura à Presidência da República do Tasso Jereissati. Sabe qual era a ideia? A ideia era a seguinte: nós vamos fazer um plano de estabilização e vamos trocar a moeda por um dólar, conversível ao par [um pra um] e não temos dólar. Então nós temos que fazer a taxa de juro pra cima, o mais alto que for, não interessa, vamos exagerar, porque se a gente errar pra cima a gente atinge o objetivo e vai trazendo pra baixo. Pra quê? Três finalidades:

Primeiro, prevenir a explosão de demanda agregada e a sensação da espiral de preço. Como se no Brasil isso funcionasse. Lá em Chicago, eles aprendem, que quando encarece o crédito, a demanda agregada pelo encarecimento do crédito cai. Aqui no Brasil, a população não faz esse cálculo, ela faz o cálculo se a prestação cabe no bolso. E a Casa Bahia não é uma Casa Bahia, a Casa Bahia é um banco. O Ricardo Eletro é um banco, porque vende um microondas e ganha três no juro. Então, a primeira providência falha.

Segunda providência, nós íamos destruir trinta anos de receita inflacionária do setor público e do setor financeiro. A inflação no Brasil não era o que as as manuais de economia dizem, uma doença da moeda. Porque no Brasil nós inventamos a indexação, que tá aí até hoje. Atenção, Marco Lisboa, a inflação do IGPM, que eu sei como foi criado, é de 37%. Porque eles inventaram o indexador sensível a dólar, para dizer aos estrangeiros que viriam pra privatização que o Fernando Henrique queria fazer, que no Brasil nós não podíamos dolarizar a economia, como o debate tava claramente acontecendo, mas nós daríamos a ele um indexador que era a mesma coisa de ser dólar. E aí tá a brincadeira, até hoje, com core inflation atacando com juro alto, a inflação que subiu por causa do câmbio. Isso é um negócio pirado, de doido, completamente. Quem ouve lá fora isso, não acredita, né? Então, era essa segunda razão, substituir a receita inflacionária por uma receita de juro, porque não sabíamos a extensão da crise bancária que viria com a subtração da renda.

E terceira questão chave de entender o nosso drama contemporâneo: nós iremos atrair com a taxa de juro brasileira exorbitantemente alta, aparecendo no videogame do Wall Street dizendo que tinha um doido aqui no Brasil, pagando overnight 14% de juro básico. Overnight, risco zero. Qual é o precedente de calote? Nenhum. Então, [eles diziam] vamos pra lá. Pra quê? Porque nós íamos anunciar uma moeda conversível ao par com o dólar e não tínhamos o dólar. Estávamos saindo da moratória do FUNARO que foi retoricamente anunciado como oratória, na verdade foi que faltou cara, não tínhamos dinheiro pra pagar.

Como é que se calculou essa taxa de juro? Alguém diz 10%, não, 10% é pouco. Não, não, bota vinte, porque se errar, a gente puxa. Isto era assim. Vamos fazer? Porque isso resolve o problema. Essa é a razão da minha disfuncionalidade com a equipe lá e com o Fernando Henrique depois. Vamos fazer, porque depois a gente resolve elege o Fernando Henrique, renova o Congresso e entramos imediatamente com o conjunto de reformas e então saímos desta loucura para preparar o país para um novo projeto.

Então, fizemos e no dia seguinte o Fernando Henrique pegou um paciente, que era caso cirúrgico, em que nós anestesiamos com o real, né? O real foi isso, um antiepilético, foi um anestésico não é? E levou pro baile funk. Levou pro baile funk e está aí a merda até hoje. E isso é o que nós estamos vivendo hoje. Sabe o que que vai acontecer? Eles aprenderam a ganhar a eleição com juro alto. Porque juro alto anestesia o rico. O juro alto atrai dólar pra cá, aprecia o real, quebra nossa indústria, mas fortalece o nacional consumismo, o populismo.

Sabe o que o Paulo Guedes tá fazendo, cavalheiros? Exatamente a mesma coisa. Há na iminência do ano 2022 e nós vamos deixar isso acontecer de novo? O filme é de noventa e nove, a Dilma repetiu igualzinho. E esse é o grande problema.

Então, qual é a questão? Ganhar a hegemonia moral intelectual, escrever livro, participar de debates, tentar fissurar esta elite, dividi-la, porque você tem já um agronegócio que vê comunismo embaixo da mesa, ir atrás da porta, mas já sabe que vai levar uma porrada mortal se não adotar as práticas ao sustentáveis, sabe? De não matar índio, de não depredar floresta, de não ter trabalho análogo à escravidão. A gente tem que dar uma porta pra esse, pra esse grupo vir, né?

Os industriais que remanescem… um Benjamin Steinbruch, tá aguentando. A China está com 25% do mercado de aço planos do Brasil. Benjamin já teve que se desfazer da unidade dele nos Estados Unidos porque foi forçado pela política industrial e de comércio exterior do Trump a vender a siderúrgica dele lá, porque a restrição das importações brasileiras, que é o que o mundo inteiro faz.

O Josué vai ganhar a FIESP. O Josué é industrial. A Cooperminas é uma grande indústria que acoçada aí por câmbio fraudado, por contrabando, no setor têxtil. Ele é o industrial vivo, ativo, severo, vai pra FIESP. Ó os sinais acontecendo. O Josué conversa comigo. O Paulo Skaf, caramba. Que isso? Não é questão pessoal, sempre foi cavalheiro comigo e tal, mas que isso, não entende nada. O presidente da CNI, o Robson, entende de que? Eu fui lá falar pra eles, olha, destruir trabalho, introduzir insegurança jurídica, insegurança política, insegurança econômica no mundo do trabalho destrói o capitalismo. É levei uma vaia na CNI, esperei passar a vaia. Deixa eu dizer de novo, repeti de novo. E tem mais o seguinte, agora eu vou anunciar, se eu for presidente, vai voltar tudo à estaca zero, nós vamos lá abrir de novo uma discussão, porque o capitalismo moderno se afirma no consumo de massa, e o consumo de massa se afirma na renda do povo, os senhores estão destruindo a renda do povo e não entendo que estão fechando essas indústrias.

ANDRÉ RONCAGLIA:

O Biden leu seu livro, hein, Ciro?

CIRO GOMES:

É lisonjeiro que eu ouça isso. A minha solidão acabou, mas isso aí é como os americanos se construíram. O Biden não tá lendo a mim, o Biden tá consultando a história norte-americana, os americanos entraram na Segunda Guerra Mundial como sexta potência do mundo, emergiram dela depois de se economizar e não ter o seu território destruído como a primeira potência, por basicamente compra governamental. O complexo industrial militar. Os pais fundadores, os americanos, quando eu morava em Boston, em 1995, os americanos não permitiam banco regional. Eu tinha que ter minha conta no banco da universidade porque o Banco de Boston do outro lado do rio demorava 3 dias para compensar meu cheque. Eles deram uma afrouxada mas hoje são 5.000 bancos. Nosso povo deu seis eleições ao nosso pensamento progressista, e sabe o que fizemos nesse período? Concentramos em 5 bancos a hegemonia financeira.

Mas, Paulo, vou voltar à questão. Nós temos que ir ao poder e fazer a taxa de juros estar consistentemente abaixo da rentabilidade média dos negócios. É a única linguagem eficaz. Objetiva. Eu sei que não se faz isso a martelo e com voluntarismo. Mas as condições que se faz isso nós precisamos conquistar. Basta ver o que aconteceu. Um governo de ultra direita, fascista, que não sabe nada do que está acontecendo. O Roberto Campos pega a taxa de juros e bota ela negativa, os fundos imobiliários explodiram, a bolsa de valores explodiu. Isso vai dar merda. Porque ainda não é economia real, mas você sente claramente. A construção civil começou a sentir. É óbvio. Se eu pago pelo governo um juro mais alto que a rentabilidade média dos negócios essa economia para. Porque eu não vou botar em um negócio um juro que rende menos que o dinheiro que eu coloco no banco.

Quando o Getúlio fez a revolução de 30, ele fez contra tudo e contra todos da elite no Brasil, que era o quê? Uma elite escravocrata, assentada no latifúndio, na monocultura do café, e que fazia a transa política entre duas oligarquias, em Minas e São Paulo. E o que que ele faz? Ele funda uma nova burguesia brasileira. Então, ele cria um conceito de burguesia brasileira, inspirado nisso. O movimento tenentista dá o direito das mulheres votarem, estabelecem um sindicalismo de cima pra baixo e é isso que nós temos que refazer. Agora com a juventude, universitária. Incubadora de empresa. Venture capital, seed money, angel money, que a gente usa as expressões que nem sequer o correspondente em português, assistência técnica, capacitação gerencial, isso vai criar no Brasil uma nova elite. Penso, luto.

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