Para Ciro Gomes, “é preciso propor antes, correr o risco de ser criticado”

Foi transmitida no início desta terça-feira (08/05) uma nova entrevista concedida por Ciro Gomes ao programa Canal Livre e, ao longo de suas falas, o pré-candidato trabalhista destacou em vários momentos sua compreensão da relação que se deve ter com a sociedade neste período que antecede a campanha e as eleições deste ano.

O ex-governador do Ceará mencionou o assunto primeiramente ao repercutir a entrevista dada por Mauro Benevides Filho, que participa da construção de seu programa de governo, ao Estadão nessa semana: “Nós estamos recebendo ideias. E é isso que ele [Benevides] anuncia porque nossa campanha será feita com absoluta transparência, porque eu quero pedir ao povo brasileiro que, se me der a honra de servir a essa grande nação como seu presidente, me ajude a entender as ideias que quero levar para corrigir as coisas erradas do Brasil”.

Ciro Gomes destacou que ”o país não pode deixar um presidente se eleger na lógica do ‘deixa que eu chuto’ e chegar lá e se decepcionar mais uma vez, e deixar o Congresso Nacional botar cabresto no presidente. Nós precisamos interromper isso e nós só vamos fazer isso se tivermos uma relação madura com a sociedade”.

Segundo o sentido dado pelo ex-ministro em sua fala, a lógica do ‘deixa que eu chuto’ se refere a uma postura auto-assumida pelos governantes de que já têm os conhecimentos e soluções prontas por si, ou seja, sem ter debatido amplamente com a população. É justamente essa falta de diálogo direto com o povo que Ciro Gomes que fazer cessar.

Ao falar sobre sua opinião para o que deveria ser a reforma da previdência, Ciro tocou novamente na questão da relação com o povo nesse debate: “Eu estou tentando ver se a gente compreende o assunto para que a população nos ajude a encaminhar a discussão. […] Nós estamos recebendo críticas, sugestões e não temos nenhuma pressa, para deixar todas as opiniões virem. Eu vou anotar todas, estou trabalhando com dezenas de especialistas, pra gente achar uma fórmula em que a gente ponha em debate o que precisa ser feito, e tire os medos da transição. Porque a grande questão é essa, ao invés da gente discutir o que precisa ser feito e depois discutir [como será] a transição, a gente já está abrindo mão do que precisa ser feito e fazendo puxadinho pra lá puxadinho pra cá, que só perpetua a injustiça”.

Ainda assim, o pré-candidato não deixou de mencionar sua opinião para a previdência segundo suas discussões, que combina três formas de compor o cálculo: uma parte do valor viria de uma renda básica de cidadania (perto do salário mínimo, como tarefa do Tesouro Nacional), outra parte de um sistema de repartição (como o que existe hoje) e uma terceira parte de um regime de capitalização individual público e sobre controle dos trabalhadores.

O ex-ministro salienta que, no caso de todos os governantes que assumem o poder, é preciso “propor antes, correr o risco de ser criticado. Porque, quando você for eleito, vão eleitos você e suas ideias”.

Um outro momento em que foi discutida por Ciro Gomes a relação entre pré-candidato e sociedade ocorreu  após pergunta feita pelo entrevistador Rafael Colombo. “Quando o senhor se reúne com o empresariado ou o mundo produtivo o senhor é cobrado ou não por afirmar que vai tomar de volta a Embraer se ela for vendida para a Boeing, vai expropriar campos de petróleo pagando de volta as devidas indenizações, vai reverter uma eventual venda da Eletrobrás? Isso é transparência no jogo ou é um comportamento arisco a um determinado grupo de investidores?”, perguntou o jornalista.

É transparência no jogo e um comportamento completamente avesso a certo tipo de investimento. Porque nenhum país do mundo civilizado entrega seu regime de águas ao estrangeiro, nenhum país do mundo, tendo o petróleo que o Brasil tem, deixa de administrá-lo em favor do seu objetivo estratégico nacional, porque não faz sentido isso”. A resposta de Ciro neste ponto toca na questão da soberania nacional, ou seja, na capacidade do país de agir sem interferência ou muita dependência externa, o que tem sido diretamente ameaçado por medidas como essas que envolvem os recursos naturais e energéticos presentes no território brasileiro.

Eu estou tentando avisar ao investidor estrangeiro que um dos pré-candidatos pensa assim, transparente e claramente, para que ele amanhã não venha alegar que foi enganado pela sociedade brasileira. Eu sou uma pessoa séria, nunca enganei ninguém. [Aos investidores desse tipo] Não venham comprar porque, se eu for presidente, vai voltar tudo para a posse e propriedade do povo brasileiro com as devidas e corretas indenizações”, completou o pré-candidato trabalhista à presidência da República.

O ex-ministro tem diferenciado setores brasileiros e caracterizado a responsabilidade de cada um na situação atual de crise do país. Para Ciro, é preciso incentivar os setores e investidores produtivos nacionais, “reunir o país que produz com o país que trabalha”, como ele mesmo afirmou, e regular abusos cometidos pelo mercado financeiro, setor que abriga esse grupo de “investidores” não-produtivos ou especulativos, a custa do país.

Neste ano, há risco das questões essenciais para superar a crise brasileira não serem tratadas, mas o ex-governador do Ceará tem se esforçado, em sua agenda de eventos, para debater o que poderia ser um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento com a população.

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