Ciro Gomes ser ou não oportunista


 

Eu, Gabriel Lima, militante da campanha do Ciro Gomes e participante da juventude do PDT, também senti falta do Ciro lá comigo. Era a maior oportunidade do PDT dar as mãos ao PT, PSOL, PCdoB e reafirmar uma frente de esquerda contra o golpe. Senti falta da voz do Ciro ao lado do Lula nos palanques aonde se protagonizaram Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos. Senti falta, na hora que me encontrei com o Lula, horas antes da sua entrega a polícia federal, de Ciro estar ao meu lado. Era hora da união, precisou matarem Marielle para o PSOL enxergar a importância disso e como sabemos, com o fascismo não se brinca.

Mas eu estava dentro do sindicato, na loucura dos momentos que ali ocorreram. Minha paixão sobressaia da minha racionalidade e hoje, em casa, refletindo sobre tudo, encarei a razão de Ciro não estar lá: intimidade.

Ciro apoiou Lula em todas as suas eleições (98, 2002, 2006 e 2010), não só apoiou, foi de sua equipe econômica como ministro de Estado nos primeiros passos da gestão do petista. Ciro foi o maior articulador do Nordeste quando o “Mensalão” explodiu. Ninguém lembra, mas Lula chegou sofrer severas ameaças de impeachment de setores da direita que ali já mostravam suas garras e Ciro junto a muita gente boa não permitiu.

Ciro esteve nas posses de Lula como presidente e esteve ao seu lado um dia depois de sua saída do governo. Fez campanha para Dilma.

Não só fez campanha, articulou novamente todos os votos a favor da ex-presidenta na face do golpismo. Esteve com Dilma em sua saída antecipada do governo.

Vocês não falam isso, mas no congresso que o PDT postulou o nome do Ciro para a corrida presidencial pela primeira vez, Dilma estava lá, ratificando que Ciro era segundo ela, um dos principais guerreiros contra os políticos que tiraram a mesma do Planalto.

Ciro elegeu o PT ao governo de Ceará.

Ciro elegeu deputados do PT pelo estado do Ceará.

Ciro, com todo seu capital político, confiou e transferiu ao PT seus votos em todas eleições presidenciais.

Como assim Ciro é oportunista? No mínimo houve um erro de não estar com o ex-presidente quando a história do nosso país era desenhada. Mas nem isso foi erro.

Explico: existiram vários fatores para Ciro não estar em São Bernardo do Campo e vou levantá-los aqui.

1) Locomoção: Moro decretou as 17h da sexta-feira a prisão do Lula. Neste momento Ciro Gomes desembarcava em Nova York a caminho de Harvard. Ciro, por mais dinheiro que tenha, não dispõe de jato particular. Para economizar para uma campanha tão ingrata (45 dias com o tamanho do Brasil), há tempos vem viajando em voos comerciais em classe comum. Se decidisse ali voltar naquele momento, sua saída só poderia ser no Sábado, quando ele seria palestrante do maior evento de discussão do Brasil fora do país. Então ali ponderou.

2) Mas não estava decidido, existia possibilidade da sua volta. Ciro então, em nome de todo o PDT, encaminhou seu irmão Cid a São Bernardo. Sim, amigos e amigas. Cid não só esteve lá, como ficou a madrugada com o ex-presidente em sua primeira noite de reclusão no sindicato dos metalúrgicos do ABC. Cid levou toda a solidariedade do Ciro ao Lula que o recebeu de braços abertos e ali Cid junto do próprio, transmitiram a mensagem a Ciro que ficasse e denunciasse o golpe na “Brazil Conference”, evento da Harvard para discutir o nosso país.

3) Juventude presente: toda a juventude do PDT esteve as mais de 30 horas que Lula esteve em São Bernardo do Campo. Uma juventude que com todas as dificuldades do momento repentino (dormiram no chão, sem alimentação e água – pois cortaram a água do estabelecimento e estava difícil o acesso a comida) ficou até o último momento com o ex-presidente. Fomos recebidos calorosamente sabe por quem? Gleisi Hoffmann, que nos deu acesso ao Lula integralmente, mostrando a importância do PDT neste processo. Também estávamos ali representando o Ciro.

4) Brazil Conference: ninguém fala, mas Ciro estava no mesmo painel que o vice presidente nacional do PT Alexandre Padilha (que também não voltou). Não só do Alexandre Padilha, de Flávio Dino, um dos principais quadros do PCdoB que também decidiu ficar. Ciro abdicou de toda a sua pauta que falaria no evento e denunciou 100% o que acontecia no Brasil naquele momento. Deixou seus projetos, para falar de Luís Inácio. Isso é oportunismo?

5) A frase que a mídia golpista frisou “não sou puxadinho do PT”: distorcendo novamente as palavras de Ciro, a pergunta que lhe foi dirigida era – “Por que o senhor não esteve *NOS ÚLTIMOS* atos do ex-presidente Lula? – Vejam, amigos e amigas, a pergunta não se dirigia ao evento de São Bernardo e sim da caravana e dos demais eventos aonde Manuela D’Ávila e Boulos para além daquele momento, também se encontraram em palanque com Lula. Ciro no estresse dos questionamentos (visível pela sua reação por uma cobrança indevida de alguém que queria o colocar como o vilão do momento) respondeu o que respondeu. E de fato não é estratégia do PDT seguir os caminhos do PT no primeiro turno das eleições. Isso não significa inimizade ou que somos de direita. Significa que temos outra estratégia do jogo que está dada.

6) A importância da denúncia do golpe à mídia internacional: o principal discurso do PT e de sua presidente, Gleisi Hoffmann, era que o mundo ia ver Lula preso e que isso faria o Brasil estar em xeque com a sociedade internacional. E quem novamente estava a frente de repórteres do quatro cantos do mundo nos Estados Unidos? Ciro Gomes! Vocês realmente não veem importância dele não ter voltado?

7) A base: como todos sabem, existem hierarquias nos partidos políticos e qualquer político que queira um partido 100% voltado a si respeita primeira e integralmente sua base. E a base do PDT decidiu por Ciro ficar. Ciro lançou nota pública, em coletiva denunciou o Moro e sua decisão e dedicou um painel inteiro ao Lula. Essa foi a nossa decisão.

8) Por último e o mais importante, a intimidade: Ciro sabia que Lula se entregaria e não optaria por transformar São Bernardo em uma praça de guerra. Se alguém tinha dúvidas que Lula se entregaria, Ciro não. E por ter a todo momento atualizações da juventude e diálogo aberto com Cid que esteve lá, acompanhou toda a situação e falou com Lula por telefone. Vocês não sabem, mas Ciro ligou a Lula. Como legalista e professor de direito, acredita que o momento será revertido na próxima decisão do STF de que prisões em segunda instância são inconstitucionais.

Ciro esteve e de alguma forma estará com Lula até os seus últimos passos.

Existe Lula no projeto político de Ciro Gomes.

Existe Lula quando Ciro decide que a principal chave do seu plano político é o combate as desigualdades.

Não vamos reproduzir o que a direita e fascistas querem: o rompimento dos nossos laços. Vamos enxergar a importância de Ciro estar lá, junto de Padilha e Flávio Dino denunciando internacionalmente o golpe.

Ciro, a última coisa que você é é oportunista.

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