Ciro Gomes e a força de uma ideia cujo tempo chegou

Já não vigora mais a estratégia política e plutocrática de forçar a opinião pública no Brasil a achar que seu país não foi capaz de produzir novas lideranças nesses anos e de insistir que todas as forças gravitam em torno do mesmo grupo político central. Em Brasília, no dia 07 deste mês, não por acaso Ciro Gomes lembrou durante o evento organizado pela plataforma #TodosComCiro uma frase do escritor francês Victor Hugo: “Nada mais forte do que uma ideia cujo tempo chegou”. Houve vibração na plateia nesse momento, sensação geral de estar presenciando um momento histórico importante ao país.

Poucos dias após o lançamento oficial da pré-candidatura de Ciro Gomes, a ideia de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento como fio condutor dos debates necessários neste ano parece estar instalada, assim como cresce a repercussão em torno da principal liderança política que desse tema tem tratado, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes. Vários jornais online, canais televisivos, movimentos sociais e grupos políticos agora noticiam as ideias de Ciro com maior frequência. Devemos seguir atentos, reflexivos e ao mesmo tempo abertos ao diálogo franco e contundente. De fato, o tempo histórico parece ter trazido com força as ideias defendidas por Ciro, por motivos vários.

Um dos motivos está no esgotamento da perversão neoliberal, “vendida como ciência boa” em universidades, em think tanks, em eventos fechados aos barões e seus jovens talentos. Anos de especulação financeira, desregulamentação e o jogo político do rentismo no Brasil são verdades que saíram da caixa. Diante do agravamento que estamos vivendo, nossa própria população se revolta e rejeita o resultado de um cenário armado pelos talentos neoliberais, verdadeiros “especialistas sem espírito”, alheios à realidade do país.

Houve também o escancaramento da atuação de um grupo político fisiológico brasileiro, que chegou ao poder de forma ilegítima, traindo os interesses de seu próprio povo. Mas, o protagonismo que adquiriram nos poderes institucionais do país os deixou em evidência suficiente para que pudéssemos saber seus nomes, reconhecer seus interesses e seus partidos – fatores que talvez não ficariam marcados na memória do brasileiro se esse grupo tivesse continuado atuando à sombra dos governos. É sob o sol que a podridão agora se desfaz vagarosamente, embora deixe danos incontáveis.

As investigações sobre corrupção também trouxeram para a população a semente de um aprendizado coletivo importante, pois minaram a ideia segundo a qual haveria um mercado divino e um Estado demônio. Mostrou-se ao povo que embaixo do tapete da meritocracia e da tríade talento-liderança-gestão (tão repetida pelos planos de carreiras das grandes empresas), escondem-se homens com práticas rudimentares, antiprofissionais e corruptas, frequentemente como modus operandi do empresariado.

Claro que as investigações plantaram também outra semente, de perigo de um estado de exceção judicial, que tem gerado perseguições, tem arriscado nossa soberania com a destruição de empresas, empregos, reputações e com jurisprudências estrangeiras que não nos servem, para citar alguns dos malefícios. Contra isso teremos que travar uma grande batalha, mas um ganho das investigações foi ter permitido explicitar que o campo econômico, empresarial e o mercado se entrelaçam na corrupção.

Esgotou-se também um ciclo político que foi exitoso durante mais de 13 anos, sob o qual uma geração de pessoas cresceu e emergiu. Como manter uma frente de esquerda na qual um mesmo partido seja o cabeça durante 20 anos, num país de mais de 200 milhões de pessoas? Num Brasil inserido na semi-periferia global, as mudanças da sociedade são sentidas velozmente, quase como se fôssemos um grande laboratório de testes para os conflitos vividos no século XXI e, depois de anos, as verdades e propostas que o país exige saber já não podem ser dadas pelos mesmos atores políticos que protagonizaram as conquistas que tivemos a partir de 2003.

Esgotamento do neoliberalismo, escancaramento da fisiologia de um grupo político brasileiro, esgotamento de um ciclo político exitoso e as ideias e perigos das investigações contra corrupção. As crises de fato indicam um período em que o velho está morrendo e que o novo ainda não podia nascer – mas em breve poderá. Devemos lembrar que essas situações, partes de um panorama de aguda crise, ao mesmo tempo suscitam outras ideias fortes, presentes no debate brasileiro há bastante tempo, e que agora se tornaram centrais.

Uma das ideias que alcançou seu tempo certo parece ser o trabalhismo, pilar do partido de Ciro Gomes. O processo histórico em crise fez com que o trabalhismo voltasse a ter peso explicativo e propositivo para o futuro das sociedades todas ao redor do mundo. Isso porque, de modo geral, mais do que nunca é preciso haver maior equilíbrio entre as forças do trabalho e as forças do capital, sob o risco de todo o arranjo institucional das sociedades modernas terminar colapsado.

A emergência de uma nova fração de classe, chamada de “nova classe média” ou então de “nova classe trabalhadora” (os “batalhadores brasileiros”), trouxe também a cobrança de que a melhora da qualidade de vida da população seja profunda e duradoura. Para isso, torna-se mais forte do que nunca a necessidade de discutir o desenvolvimento inclusivo, o que significa ir além da reindustrialização, ter como norte a nação brasileira e suas frações de classe, ou seja, voltado também para um intenso “investimento em gente”, como afirma Ciro. Ou um produtivismo includente – como assinala Mangabeira Unger – que o Brasil tem condições de implantar como exemplo ao mundo.

O tempo mostra ainda a necessidade de recuperar o sentimento de nação, o que não significa alimentar aversões xenofóbicas, mas sim fazer ruir o viralatismo, a ideia incrustada na cabeça dos brasileiros de que teríamos um defeito genético ou um “jeitinho” que impediria nosso povo de ter uma vida digna.

O Brasil deve encarar seu destino de ser grande. Está na hora. Muitas vozes estão sendo caladas, pela violência com que os velhos tempos vão tentar se manter. Será mesmo que haverá manipulação de emoções, data analysis e estratégia forçada nas redes ou nas ruas capazes de inverter a vontade popular e conter uma nação que espera já há séculos por um destino que sabe ser o seu? Vamos resistir, com a força de uma ideia que chegou a seu tempo.

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