Entrevista de Ciro Gomes na GloboNews: uma resposta ao Cafezinho

Texto: Christian Velloso Kuhn

Na terça-feira passada (13),  Ciro Gomes deu uma entrevista ao jornalista Roberto D´Ávila. Se, por um lado, teve oportunidade de divulgar suas ideias a um nicho do eleitorado brasileiro mais de centro e direita, por outro, provocou forte contestação por certos veículos da mídia “progressista”, tachados pelo próprio Ciro de “gabinete do ódio da esquerda” em uma entrevista para a TV Democracia em 17 de maio de 2020. Aos sites Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo (DCM), parece estar se somando “O Cafezinho”, que desde o lançamento da pré-candidatura de Lula e sua ascensão nas preferências dos eleitores nas últimas pesquisas, passou a compor esse “seleto grupo” de canais fortemente identificados com esse programa.

Fogo “amigo”: quem é Miguel do Rosário?

A crítica elaborada pelo jornalista Miguel do Rosário, do site “O Cafezinho”, foi, inclusive, reproduzida na página do canal DCM. O jornalista também é autor de 286 artigos no canal Brasil 247, e de alguns para o Rede PT . Não se trata de querer desqualificar o autor (ou de querer “matar o mensageiro”), o que seria uma heresia, haja vista que se trata de um jornalista bastante culto e inteligente. Todavia, é importante para a militância trabalhista e cirista conhecer melhor a história de alguns formadores de opinião, antes de, ingenuamente, considerá-los parceiros ou defensores das mesmas ideias e projetos de Ciro Gomes.

“Paris” e “descontrole”: críticas superficiais

Feitas essas considerações iniciais, vale contra-argumentar alguns apontamentos e críticas desferidas por Miguel do Rosário com a máxima vênia, como diriam profissionais da área do Direito. A primeira bravata de Rosário contra Ciro é quando ele afirma que “É relativamente fácil provocar Ciro. Basta mexer um pouquinho onde lhe dói, como a história de Paris”.

Esta é uma ilação totalmente sem fundamento. Primeiro, que em nenhum momento Ciro perdeu a compostura na entrevista. Não se deve confundir discursos enérgicos e assertivos com “descontrole” ou “destempero”. Um jornalista experiente e inteligente como Rosário tem obrigação de saber fazer essa distinção. Ademais, nunca ninguém acusou Brizola, por exemplo, de ter perdido qualquer eleição devido ao seu temperamento, pois todos compreendiam que fazia parte de sua personalidade forte e aguerrida. Pelo contrário, foi uma marca que lhe fez conquistar vários de seus eleitores. Guardadas proporções, muitos dos apoiadores de Ciro admiram o seu vigor e sua fala firme e franca.

A contradição do Cafezinho sobre a “história de Paris”

Segundo, desde quando a “história de Paris” provoca qualquer “dor” em Ciro Gomes? Ciro retornou de sua viagem, após o seu partido decretar “apoio crítico” a Haddad no segundo turno, para votar no candidato do PT contra Bolsonaro. Fortaleza foi o maior colégio eleitoral que migrou de Ciro para Haddad, com 1,78 milhões de eleitores. Inclusive o próprio Miguel do Rosário escreveu sobre estudo que demonstrava a grande maioria dos votos (79,2%) em Ciro Gomes no primeiro turno migraram para Haddad no segundo. Aliás, cabe frisar o último parágrafo desse artigo de Miguel do Rosário:

“À luz desses dados, a esperança de parte da esquerda em uma possível virada de Haddad no segundo turno não passava de uma ilusão baseada no desconhecimento do perfil do eleitorado de cada candidato e, sobretudo, do grau de rejeição de todo o eleitorado não petista ao PT. Dentro da própria esquerda Haddad foi a segunda opção e seguido de perto por Bolsonaro. Este último foi capaz de capturar a maioria dos votos dos outros grupos políticos e isolar o PT ao redor do eleitorado de Ciro Gomes” [grifos nossos].

Além dessa forte contradição e incoerência de Miguel do Rosário, cabe ressaltar que mesmo que 100% dos votos de Ciro tivessem migrado para Haddad, ele ainda não teria sido eleito, como demonstro em uma thread no Twitter . Talvez isso explique o porquê da indignação de Ciro quando Roberto D´Ávila insinuou “que ele, ao sair do Brasil no segundo turno de 2018, ‘ajudou a eleger Bolsonaro'”. Nem mesmo Miguel do Rosário concorda com essa acusação. É elementar que Ciro Gomes tenha demonstrado alguma contrariedade, mas em nenhum momento “fechou a cara e respondeu violentamente”, como levianamente foi acusado pelo jornalista do Cafezinho. O próprio trecho da entrevista destacado no artigo comprova que Ciro não teve nenhuma alteração significativa em seu tom de voz ou qualquer outro sinal que pudesse ser enquadrado como uma resposta “violenta”.

Quem é o criminoso?

Também é preciso esclarecer que, quando Ciro argumenta que “‘como democrata’, não tinha obrigação de participar de uma campanha liderada por um ‘criminoso’”, o tal “criminoso” a que ele se refere não se trata de Lula (até porque se encontrava preso em Curitiba), mas sim a um dos coordenadores da campanha, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que foi proibido de ocupar cargos públicos por 8 anos pelo TCU e teve sua aposentadoria cassada pela CGU por impropriedade administrativa e lesão aos cofres públicos durante sua gestão na estatal de 2005 a 2012, quando foi adquirida a refinaria de Pasadena, nos EUA, em 2006.

As palestras de Lula financiadas pela Odebrecht

Miguel do Rosário também se perde ao criticar Ciro por sua fala sobre os altos valores das palestras cobrados por Lula e pagos pela Odebrecht. Enquanto o jornalista do Cafezinho tenta contrapor, justificando tais cifras elevadas por Lula ter sido “presidente da república por duas vezes, e sair do governo com altos níveis de aprovação popular” e comparar aos valores cobrados por palestras de Obama (US$ 400 mil cada) e Clinton (US$ 150 milhões no período 2001-2015), esquece de mencionar que a Polícia Federal já considerou os valores recebidos por Lula como propina paga pela Odebrecht.
.

O nicho eleitoral de Ciro Gomes

Quanto a uma possível perda de votos de Ciro, questionada por Roberto D’Ávila, quando este argui que, “com esse discurso, deverá perder uma parte, pelo menos, dos votos da esquerda, e que na direita empedernida ou na extrema-direita, o senhor não terá votos, onde é que o senhor pretende buscar seus votos?”. É muito simples. Pegando como exemplo a pesquisa da “Exame Ideia”, de 25 de junho, em que Ciro aparece com 10% a 16% das intenções de voto, conforme o cenário. Primeiro, 42% dos entrevistados na pesquisa espontânea afirmaram que ainda não tinham candidato. Logo, há um grande espaço para buscar votos. Segundo, Ciro aparece com metade da rejeição de Lula e Bolsonaro (20%, contra 40% dos dois). Ou seja, 80% dos eleitores preferem ou se dispõem a votar em Ciro Gomes. Ainda, nos quatro cenários analisados, de 28% a 33% dos eleitores não pretendem votar nem em Lula nem em Bolsonaro. É um percentual mais do que suficiente para Ciro chegar ao segundo turno (Haddad obteve 29,3% dos votos válidos, mas apenas 22,9% dos votos totais no primeiro turno de 2018).

A confusa esquerda brasileira

Posteriormente, ao criticar a fala de Ciro quanto à esquerda brasileira estar “muito confusa” (petistas, psolistas e pecedobistas), e que isso poderia atrapalhar a sua formação de alianças, ao contrário do que sugere Miguel do Rosário, Ciro não “chutou o pau da barraca”, tampouco “suas falas não correspondem a um político com perspectivas reais de poder”. O jornalista sabe que os petistas dificilmente deixarão de votar em Lula. O PCdoB, apesar da afinidade do partido com um Projeto Nacional de Desenvolvimento, é muito fiel ao PT, como vem sempre fazendo desde 1989 em todas as eleições presidenciais. O PSOL sempre lançou candidatos próprios desde 2006, quando da sua criação em 2004. Portanto, ao contrário do que diz “O Cafezinho”, “faz sentido” completamente.

Possíveis aliados

Se em tese, “Um projeto nacional de desenvolvimento, aos moldes do que” Ciro “defende, apenas seria possível com apoio dos partidos, quadros, movimentos e organizações de esquerda”, na prática, o PND pode muito bem receber apoio de partidos de centro-esquerda, como PSB e REDE, ou mesmo de centro como Cidadania, PSD e outros. Quanto à alegação de que “os partidos de direita não dariam sustentação a esse projeto”, cabe lembrar que o Lula, em 2002, recebeu apoio de partidos como PL e PTB, e posteriormente até de direita como PMDB e PP. O que impede que Ciro, mais à frente, construa alianças com os Democratas, por exemplo, que já participaram juntos de eleições municipais de 2020, como em Salvador, na Bahia?

Ciro difamou Lula?

Finalmente, com relação às “referências a Lula se tornaram simplesmente difamatórias, e podem lhe render condenações judiciais pesadas”, faltou Miguel do Rosário especificar quais. Fala das propinas financiadas pela Odebrecht? De Lula ser o “o maior corruptor da história moderna”? O Mensalão e os seus processos ainda em curso não são uma prova disso? Ademais, o fato de Ciro sempre ter apontado as falhas nos processos liderados por Moro contra Lula, não significa que agora ele esteja tendo uma postura incoerente.

De onde vem o dinheiro de Eunício Oliveira?

Ciro vem sendo sempre justo nas críticas a Lula. O que não acontece com o jornalista do Cafezinho, ao citar o leilão de imóvel de Ciro por processo de difamação movido por Collor, que foi arrematado por R$ 400 mil pelo desafeto de Ciro, o ex-senador Eunício Oliveira (MDB). Miguel do Rosário se esqueceu de onde pode ter vindo o dinheiro do emedebista?

Muito provável que seja proveniente dos R$ 1 bilhão no período 2007-2011, quando a empresa em que foi dono obteve nove contratos com a Petrobras, sendo cinco por cartas-convite e quatro por dispensa de licitação. Talvez por isso que, até hoje, Eunício Oliveira, que mesmo depois de votar pelo impeachment de Dilma, apoiou Haddad no segundo turno de 2018, e vem sendo visto ultimamente com Lula, até hoje não ganhou nenhum dos 37 processos contra Ciro Gomes. Parece que a predileção pelo projeto eleitoreiro lulopetista afetou o discernimento do Cafezinho sobre quem tem projeto para o país (Ciro Gomes) e quem tem apenas um mero projeto de se locupletar e se perpetuar no poder (Lula e Bolsonaro).