Ciro no Conexão Xangai: uma aula de Brasil

Neste domingo (6), Ciro Gomes deu uma de suas melhores entrevistas. O papo no “Conexão Xangai” foi uma verdadeira aula de Brasil. A conversa, que durou mais de duas horas, pode ser resumida em aproximadamente 35 páginas de conversas inspiradoras sobre os entraves e caminhos para o país que sonhamos.

Em homenagem à qualidade da entrevista, iniciamos, hoje, uma série de publicações destacando cada uma das intervenções de Ciro ao longo do Conexão Xangai, programa apresentado por André Roncaglia, Paulo Gala, Elias Jabbour e Uallace Moreira. Esta publicação é a parte 1 deste documento.

[Parte 1] GEOPOLÍTICA MUNDIAL E PROJETO NACIONAL

ANDRÉ RONCAGLIA:

Estamos observando uma mudança sísmica na geopolítica mundial. A China vem acelerando o seu processo de estabelecer convênios e consórcios com vários países do Pacífico até, vamos dizer, o centro da Europa, e está minando a unidade europeia,sacrificada por seus próprios erros.

Como você faria uma análise inicial enquadrando o contexto geopolítico? Pra gente poder, então, entrar nas restrições que vão se impor sobre a definição de um projeto nacional.

CIRO GOMES:

Um projeto nacional precisa se assentar em duas pernas que não são da reflexão média, não é? Da disputa política e partidária brasileira, muito rasamente, e da opinião pública popular, ainda menos.

Uma perna é a questão da defesa, que a gente vai ter ocasião para conversar um pouco, e deixamos aqui para outro momento. Uma estrutura dissuasória, em que a gente projete nossos interesses nacionais com a capacidade de dizer não. É a única coisa que o Brasil quer de uma estrutura dissuasória, de defesa tecnológica, moderna e muito longe dessa coisa que está acontecendo aí.

A outra perna é uma política exterior que saia dessa dicotomia de mascate. Não é isso que o Brasil precisa. O Brasil precisa ter uma política exterior que seja guiada por dois grandes blocos de interesses. Ambos são muito pragmáticos, embora, nesse mundo sofrido em que o nosso povo está, pareça ser diletantíssimo refletir sobre isso.

Então, o primeiro grande bloco de tarefas da nova política de relações exteriores que eu advogo, para sustentar esse novo projeto nacional, se assentará numa revisão modernizada dos princípios do Barão do Rio Branco. Então, coisas simples de falar, mas muito complexas e nas quais o Brasil está na contramão, virando um pária internacional.

Solução pacífica dos conflitos, não intervenção em assuntos domésticos, respeito a autodeterminação dos povos por uma ordem internacional assentada na não violência, tudo isso são idealismos que precisam ser de novo objeto da disciplinada conduta brasileira. É isso que permitiu, por exemplo, a Oslo, na Noruega, preparar um acordo extraordinário dos palestinos com os judeus, ainda no governo Clinton, aquele célebre aperto de mãos do Arafat com Shimon Peres e Yitzhak Rabin. O Brasil saiu dessa posição preservada, que prioriza a ordem internacional assentada no direito e não na violência, e precisa voltar.

A segunda está mais alinhada a uma questão pragmática do hoje. O Brasil tem que buscar um lugar na ordem internacional em que basicamente guie a sua pretensão, os seus acordos regionais e seus esforços multilaterais por três grandes questões bem pragmáticas e objetivas.

Três questões extremamente difíceis, porém absolutamente necessárias para o Brasil e, já vou antecipando, uma vacina em tempos de epidemia, não é? Uma vacina às gravíssimas interdições que nós temos estrategicamente, que estão sendo agravadas para nos afirmarmos como nação desenvolvida.

Então, nós vamos, primeiro, buscar um regime de preferências comerciais industriais. Pra ver como é o tamanho do problema. Segundo, buscar um regime de transferências tecnológicas sensível. Especialmente em alguns setores, onde a questão de escala e premissa tecnológica que nós temos, nos permite acelerar um pouco mais, vai ser mais difícil em satélite, em chip, mas é mais simples no complexo industrial da saúde, no complexo industrial da energia, petróleo, gás e bioenergia, enfim. E o terceiro, um regime de financiamento rebelde a Bretton Woods, não é? Então, esses dois conjuntos de coisas é o que eu advogo.

Começando como? O primeiro passo é reestruturar o MERCOSUL. Da minha assinatura lá, no Tratado de Ouro Preto, qual era a intenção do MERCOSUL? Na data, havia uma pressão monstruosa e o Fernando Henrique aderiu a ela por uma pressão direta, pessoal (isso aí já é segredo de estado) do Bill Clinton. E eu assinei uma ata que o Itamar fez, mas havia uma pressa por estabelecer uma área de livre comércio das Américas, a ALCA.

Então, nós mesmo que atropelamos o calendário para encorpar a resistência, não é porque o Chile tinha ido embora, a Colômbia tinha ido embora e eles [os EUA] estavam já circulando no Paraguai e acertando coisas constrangedoras, como base [militar] e tal.

Então nós corremos. A ordem, tanto da Argentina quanto do Brasil (foram as instruções que eu recebi do presidente Itamar), era não engasgar com o mosquito, né? Nós vamos ser pressionados em bloco e não mais isoladamente. Isso tudo tá esgarçado, porque a agenda de construção do MERCOSUL tinha pretensões. Os memorandos, que valem a pena ser recuperados, falavam de coisas muito audaciosas. Falávamos em uma moeda comum no futuro. Nós falávamos nisso, coisa que a União Europeia galgou. Mas coisas antecedentes, o regime tributário, o regime previdenciário, as condições de controle fitossanitário, uma série de questões para equilibrar em direção a uma comunidade econômica real que pudesse extrapolar para América do Sul.

Isso é muito mais grave em tempo de escala chinesa, não é? A China está fazendo o mesmo trabalho aqui na Venezuela. Por uma agenda política, ela tá lá estabelecendo o pragmatismo e já transitou do Brasil para Argentina, o principal parceiro na América do Sul. Aconteceu já no governo Bolsonaro. E são coisas graves, gravíssimas. Então [precisamos] reestruturar isso. Na hora em que o Paulo Guedes, inclusive, está falando em agravamento unilateral, redução unilateral de tarifas, etc.

O segundo movimento mais importante recupera também uma tradição extraordinária do gênio brasileiro quando ele aflorou. Cada grande conflito internacional foi visto pela liderança brasileira da data como uma oportunidade, mais do que como um risco.

Getúlio, só pra dar um exemplo mais pragmático, ficou na neutralidade em relação à guerra. Lembrando que os americanos também estavam na neutralidade, não é? E só saíram da neutralidade quando o Japão, já sufocado pelo embargo de petróleo, não viu outra alternativa, senão ver o ataque e tentar … enfim, todo mundo conhece essa história.

O que Getúlio faz? Getúlio transita ali na neutralidade, em articulação com Perón, na Argentina, que transitava na neutralidade, ambos nacionalistas, preocupados com os efeitos do trauma. E, no limite, quando os planos de ocupação de um certo território brasileiro no Nordeste foram comunicados pelo próprio Roosevelt ao Brasil, Getúlio percebeu que estava na hora de um recuo estratégico e estabeleceu algumas condicionantes. Uma delas a CSN, que era premissa de uma base industrial, naquela data, bruta, de base, condição de uma industrialização.

O velho Geisel com todas as deformações, que não devemos deixar jamais de denunciar como regime ilegítimo, ditadura, etc., mas guiando-se pelo mais genuíno nacional desenvolvimentismo, revogou o acordo militar com os americanos e estabeleceu um acordo, atropelando uma série de restrições internacionais, para transferência tecnológica nuclear. Então, aí Angra I, Angra II e mais devagar, Angra III, que infelizmente nós vamos pensar, porque é a questão da energia no Brasil.

Esta é uma ocasião de ouro, Roncaglia. O conflito entre China e Estados Unidos não nos obriga a tomar lado. Volto a dizer, não é um pragmatismo, a gente deve estar nesse conflito, ponderando naquele primeiro conjunto de valores: solução pacífica dos conflitos, não intervenção, respeito à autodeterminação dos povos, ordem internacional assentada no direito.

Porém, naquele outro bloco de interesses, o Brasil pode perfeitamente recelebrar suas relações com a América. Afinal de contas, o Trump saiu. Essa ideia do Brasil ter aceitado passivamente [durante o governo Temer] virar um protetorado norte-americano, inclusive com grande cumplicidade da cúpula militar brasileira, não nos serve. Isso nunca serviu aos próprios norte-americanos, eles não respeitam. O norte-americano respeita os ingleses, contra quem eles foram à guerra. E eles têm hoje uma relação de extrema cumplicidade internacional, global, mas ali tem sangue na origem. Respeitam os franceses, né? Que estiveram ali também, não é? Em apoio a eles, na confrontação. Respeitam aos russos. E respeitam profundamente os chineses.

E o Brasil já teve um momento de grande respeitabilidade, embora, pra nós, a zona de influência norte-americana também impeça um desenho de uma relação especial que, em qualquer circunstância, tem que levar em consideração um conjunto de valores. Nossa tradição judaico-cristã. Nós somos a nação mais parecida com a América do Norte do mundo. É uma coisa impressionante como nós parecemos com eles. Grande território, um melting pot importante. Tensões. Escravidão… Para o mal e para o bem, nós somos muito parecidos.

Mas nós temos que levar em consideração o papel vergonhoso, repetido recentemente, em governos democratas, como o de Barack Obama. Guerra híbrida, espionagem, que eles tratam de estabelecer como se fosse uma paranoia. Mas veja, eles determinaram por uma lei unilateral deles que qualquer empresa global, que seja cotada em Wall Street, que é a bolsa de valores de lá, ou que tenha um mercado norte-americano como destino ou origem de algum componente, transforme-se em jurisdicionado da justiça americana. E, por causa disso, uma sentença botou um cidadão norte americano dentro da Embraer, nas antecedências do acordo com a Boeing. E no governo Dilma, não só espionaram a própria Dilma, como meteram um cara na Petrobras. Um cara com pleno acesso a tudo.

E eles sabem o que é espionagem industrial, e a gente aqui fica de pato, né? Com esses generais aí de pijama fazendo de conta. Nós temos, hoje, um almirante general, oficial, general das Forças Armadas brasileiras, sob comando do comando sul dos Estados Unidos. O que é o comando sul dos Estados Unidos? Na geopolítica deles, é a quinta frota. Que se projeta no Atlântico Sul e que foi ressuscitada a partir da descoberta do pré-sal. E essa força sul, todo mundo sabe que o norte-americano não tem nenhum território no Atlântico Sul abaixo da linha do Equador, é a força de vigilância dos interesses estratégicos americanos, especialmente, na América Latina.