País só se unirá se voltarmos a dialogar

Não importam os meios pelos quais uma pessoa é levada a crer em algo, para efeitos práticos, o que basta é a pessoa estar convicta. Assim, o convencimento ou crença influenciam a tomada de decisão dos indivíduos, tanto em âmbito pessoal como em âmbito coletivo. Isso tem implicações filosóficas e psicológicas, mas vou me ater a apenas uma: a implicação política.

De que formas uma pessoa se convence de algo? Ela pode chegar a conclusões “sozinha”, ou melhor, não explicitamente, ou pelo contato, interpretação e aceitação da tese de outras pessoas.

Quando eu digo “sozinha”, não podemos esquecer toda a sua instrução, cultura e ideologia que lhe foram passadas ao longo de sua vida, além de suas experiências pessoais e da interpretação subjetiva de suas memórias. Quando digo “não explicitamente”, significa sem que lhe falem diretamente de uma tese. Por fim, quando me refiro “pelo contato com outras pessoas”, pode ser por um livro, filme ou diretamente de alguém.

Pensando no convencimento das pessoas, são várias as formas:
(I) ela pode ser convencida por meio de um raciocínio lógico-dedutivo: se todas as sociedades que investiram em produtos industrializados de alta tecnologia são sociedades ricas, então o Brasil precisa de uma política de investimento em indústria e tecnologia se quiser ser rico – observe a fórmula “se/então” aprendida em Lógica);

(II) pode ser convencida por um argumento de autoridade: se o meu candidato afirma que os próximos acontecimentos se darão daquela forma, eu acredito sem ponderar muito, porque veio dele; ou se o meu candidato afirma que quem tem que entender de economia são seus ministros, eu acredito, porque veio dele.

(III) por uma imagem: um bom terno, sorriso estampado, discurso eloquente e alguns termos técnicos já são o suficiente para convencer muitos eleitores que o candidato é um gestor eficiente, neutro e de sucesso, e não um político;

(IV) através de gatilhos emocionais: o medo da violência urbana (ou o sentimento de injustiça e impotência, ou mesmo o sentimento de urgência com esse problema) faz muitos eleitores acreditarem que basta uma solução simples, como liberar o porte de arma, que o problema estará resolvido – consequentemente acreditam no candidato.

Poderia inumerar várias outras formas de convencimento, porém esse não é ponto. O ponto é que não importa se há indícios de que o raciocínio lógico-dedutivo esteja errado (ou qualquer das outras opções); não importa se existam falhas ou contra-argumentos, uma vez instalada a crença de que aquilo é verdade, essa passa a ser a verdade. O princípio da percepção é maior do que o princípio da realidade.

Esse princípio é tão forte que algumas pessoas veem no mundo o oposto do que pode estar acontecendo. Um exemplo rápido: desde a décade de 90, houve uma série de privatizações e abertura econômica, além da manutenção da desregulamentação do sistema financeiro. Somado a outros fatores (spread bancário abusivo, rentismo, etc), levou a um aumento da dívida pública, desindustrialização e dolarização da economia. Porém, um neoliberal pode desconsiderar os dados e tranquilamente afirmar: “isso ocorreu por que precisamos de mais livre mercado ainda; menos interferência do Estado resolveria o problema”.

Como mudar isso? Geralmente é uma mistura de muita paciência, tato e demonstrações factuais. É estar aberto ao debate, em que as duas partes mostram seus dados concretos e explicações. Em outros momentos, temos que aceitar que as pessoas não estão emocionalmente abertas para ver o lado contrário (o mesmo é verdade para nós mesmos, importante salientar). Em se tratando de política, eu particularmente prefiro mostrar que há alternativas para as pessoas do jeito mais trabalhoso, porém do mais duradouro: apresentando ideias e propostas viáveis, como elas serão feitas, e por quem. Eu prefiro dialogar com as pessoas tendo em mente um projeto para o Brasil.
 

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