Bienal da UNE 2019: Ciro Gomes e os avisos que tentaram abafar

No último dia 07 de fevereiro, do ano de 2019, Ciro Gomes compareceu à 11ª Bienal da UNE, em Salvador.

“Há quem tenha a coragem de me chamar de ‘fascista’. Queria saber que palavra ele usa pra chamar o Bolsonaro?” foi uma das frases que sintetizam a análise conjuntural exposta por ele na Bienal.

Foi a primeira vez que Ciro Gomes, terceiro colocado nas eleições presidenciais de 2018, esteve frente a frente com ferrenhos eleitores e defensores petistas.

 

A mensagem de Ciro às esquerdas na Bienal da UNE

 

“Lula Livre”? Parece que não…

Ciro teve uma calorosa recepção logo que começou a falar, porém, mal concluía seus cumprimentos aos convidados da Bienal da UNE, uma parcela da plateia entoava o canto de “Lula Livre”, ao que Ciro respondeu “parece que não”, um dia depois do ex-presidente ser condenado a 12 anos e 11 meses de prisão no caso do sítio.

Uma interlocutora tentara acalmar os ânimos, atitude contestada respeitosamente pelo ex-ministro, que afirmou que começaria falando dessa “questão” do Lula Livre.

 

“Sofremos uma derrota profunda e humilhante”

Ciro Gomes, então, procedeu, calando por alguns instantes a plateia com uma frase na contramão de tudo o que as outras forças de esquerda afirmam.

“Nós sofremos uma derrota profunda e humilhante. Ou entendemos isso ou vamos ficar viajando na maionese e confundindo nossos justos sentimentos com o que a amargura da realidade nos impõe.”

 

“Não contem comigo para se descolar de nosso povo”

Entre explicações referentes à sua trajetória que não deixam que o espectador confunda com que ideais Ciro esteja alinhado e comentários lembrando à plateia o papel desempenhado por ele ao lado de Lula e o PT nos últimos vinte anos, o pedetista partiu para a provocação principal:

“Vamos conversar e depois cada um sai com sua ideia. Nós não vamos entender a realidade se não partirmos de uma premissa: o campo progressista brasileiro, pouco importa barulho, grito ou paixão, sofremos uma derrota profunda. E é apenas o começo. As consequências dessa derrota profunda estão apenas se iniciando. Trata-se de entender as causas estruturais disso para descobrir as pistas por onde a nossa luta deve se dirigir pra reverter essa derrota humilhante, numa tentativa de reverter a esperança, não de nós, que estamos aqui, mas de milhões de brasileiros pobres que nos abandonaram para votar num líder contra eles. Milhões de brasileiros neopentecostais, milhões de brasileiros evangélicos, milhões de brasileiros da igreja católica, milhões de mulheres (a quem se dá 76% do salário pela mesma jornada de trabalho dos homens), milhões de jovens a quem se nega até a oportunidade de vida num país que tá anotando 63 mil e oitocentos homicídios em apenas 12 meses, quase todos jovens, quase todos negros, quase todos na periferia do Brasil. Todos esses em sua maioria esmagadora votaram contra nós. Será que não há nada pra gente aprender? Cabe na nossa cabeça chamar 73% dos eleitores do RS de fascista? O Lula ganhou as eleições do RS todas as vezes. Dá pra chamar 75% dos eleitores de SC, um dos estados de maior escolarização do Brasil, de fascista? Dá pra chamar o RJ de fascista na conta de 78%? Só se a gente quiser de uma vez por todas nos descolar da vida do nosso povo. E pra isso ninguém conta comigo.”

 

A velha e não resolvida “luta de classes”

Dando procedência a sua fala na Bienal da UNE, Ciro Gomes levantou uma indagação relativa à desigualdade econômica que assombra o Brasil, questionando de que forma certas causas “identitárias” – como a defesa da causa dos animais domésticos – consulta a “velha luta de classes”?

“O campo progressista no mundo desacostumou-se de discutir a desagradável questão econômica, que é onde tudo, no limite, se resolve. E parte linda, importante, respeitabilíssima do nosso campo progressista está se refugiando na agenda identitária. Por exemplo, o deputado federal mais votado no Ceará não tinha nada a ver nem comigo, nem com Bolsonaro, nem com Haddad. Se elegeu defendendo a causa dos animais domésticos. Vai dizer que isso é uma causa ruim? Que não é uma causa linda? Que não é relevante? Claro que é relevante, mas em que isso consulta a velha e não resolvida luta de classes? Em que isso consulta a velha e grave questão da pobreza de massa ante uma elite que se fausta no luxo e no privilégio?”

 

“ONGuismo” e a legitimação da ordem neoliberal do desmonte do Estado

Ainda sobre a não confrontação das questões econômicas por parte das esquerdas mundiais, o pedetista apresentou a perplexidade de como ONGs tentam ocupar o espaço transformador e resolvedor de problemas que cabe aos Estados nacionais.

“Outro refúgio de um mundo progressista sem ideia, sem projeto, é o ONGuismo. Nada mais neoliberal que o ONGuismo. Quer dizer que não há boa intenção? Claro que há. Mas quando uma ONG se afirma responsável por questões públicas, de ordem estatal, o que ela está fazendo é legitimar a ordem neoliberal do desmonte do Estado.

 

“Dói demais ouvir as verdades”

A fala de Ciro era constantemente interrompida por gritos que mais pareciam cantos de torcida ouvidos em estádios de futebol. Em dado momento, começavam gritos de apoio a Lula vindos da parcela petista da plateia e hostilização a Ciro – como se houvesse tal polarização Ciro x Lula da forma como ali posta.

Parecia até que Ciro era o responsável pela prisão de Lula, pelo tom adotado na gritaria de um militante que insistia em interromper Ciro no meio da Bienal da UNE.

“Não tá sequer ouvindo porque dói. Dói demais ouvir as coisas e a referência totêmica não responder mais. Tem coisa mais chata que um jovem no bar defendendo corrupto? Imagina um jovem no bar agora obrigado a defender corrupção, ladroeira, aparelhamento do Estado. Isso não é pra vocês. Isso não tem nada a ver com vocês.”

 

Lula, sua prisão e o campo progressista

Por fim, após momentos de gritaria, exposição de faixa e interrupções da fala do ex-ministro, Ciro Gomes concluiu sua provocação e pensamento, que sintetizam, no fim das contas, sua análise conjuntural – a que foi convidado para apresentar na Bienal da UNE, porém, desrespeitado por algumas parcelas de militantes.

“Temos o maior líder popular preso condenado em duas sentenças que somadas dão 25 anos. Ou o Brasil entende que isso é fato ou vamos delirar e espernear na maionese. Isso é a grande questão. O preso político faria o que sugeri a ele, e fui muito agredido por isso: se exilaria numa embaixada e levantaria uma ação contra essa prisão arbitrária. Mas ele aceitou os recursos e agora, desculpa, não fui eu que condenei o Lula. Não tá na minha mão libertar o Lula. Eu avisei que se a direita ganhasse as eleições, o Lula ia ficar encarcerado por muito mais tempo. Avisei na campanha! Aí todo mundo pode vomitar a paixão que quiser. Mas, enquanto a gente ficar assim, acreditando em minorias ínfimas, esmagadoramente derrotados que fomos, companheiros! Companheiras! Nós vamos humilhantemente perder e continuaremos sendo derrotados! Isso afunda o Brasil!

O epílogo da Bienal da UNE

Mais tarde, Ciro foi recebido por apoiadores e apoiadoras para uma conversa transmitida ao vivo pelo Facebook. Perguntado sobre o que pensava do acontecido no episódio, Ciro explicou, de forma descontraída:

“Já sabia que ia acontecer, pois as eleições de 2018 foram marcadas pelo ódio. Fui convidado para fazer uma análise de conjuntura na Bienal da UNE junto com outras pessoas. Ali, juntam-se todos os estudantes de todas as correntes e têm os partidos políticos. E a turma do PT anda mordida comigo, por conta de eu não aceitar mais fazer campanha com eles depois de vinte anos engolindo cobra, lagarta e todo tipo de maluquice que o PT Nacional andou fazendo. E eu sabia. Queriam que eu não viesse. Mas não vão fazer comigo o que fizeram com a Marina Silva e com o PSB: empurrar para a direita. Eu tenho uma história. Já tenho sessenta anos de idade. Venho da cidade que tem o melhor IDEB do Brasil. Sei o que é na prática ser de esquerda. Ninguém vai me ensinar a essa altura do campeonato. Eu fiz questão de vir e, aliás, só eu vim. Todo mundo mandou representante, vocês viram lá. Falei o que achei que tinha que falar, com muita dor certas questões. Mas o Brasil precisa virar a página dessa agenda que acabou elegendo o ódio, o Bolsonaro e essa agenda estreita. Chamar nosso povo de fascista é não ter humildade para entender que tem alguma coisa errada aqui. Foi eu abrir essa reflexão que a chiadeira começou.”

 

Os avisos de Ciro Gomes estão claros. Ou se abandona a pauta “Lula Livre” como motor dos movimentos à esquerda (forma como a qual o PT enxerga a pauta), adotando-se em seu lugar uma pauta propositiva e que considere os interesses da população, ou o campo progressista continuará refém do próprio discurso e fadada a acachapantes fracassos eleitorais.

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