Alberto não é Ciro, é verdade. Mas a questão é: Cristina não é Lula.

No último domingo, dia 11 de agosto de 2019, a Frente de Todos abriu mais de 15 pontos de vantagem sobre o atual presidente, Maurício Macri, nas eleições primárias da Argentina. Essa vitória não seria possível caso Cristina Kirchner não tivesse tido a gigante capacidade de ignorar a vaidade do personalismo que ex presidentes normalmente carregam. Cristina compreendeu que precisava abrir espaço para uma liderança nova, com capacidade concreta de reduzir a polarização e de caminhar em direção a unificação do povo argentino. Essa liderança era Alberto Fernandez.

Alberto Fernandez é formado em direito, atuou no Ministério da Economia argentino, ocupou Ministério no Governo de Néstor Kirchner e de Cristina Kirchner, e foi oposição ao governo de Cristina fazendo críticas duras a erros graves cometidos pelas gestões anteriores. Todas essas características fazem o histórico de Alberto Fernandez muitíssimo semelhante ao histórico de Ciro Gomes.

No entanto, no caso de Alberto Fernandez, as suas críticas não se tornaram obstáculos para a compreensão da importância de seu nome por Cristina Kirchner. Pelo contrário: a ex presidente as recebeu tão bem que decidiu colocar sua história, nome e sobrenome em segundo plano: “Primeiro a pátria, depois o movimento e por último os homens”. Dessa forma, aceitou ser candidata a vice presidente, com Alberto Fernandez encabeçando a chapa da Frente de Todos.

No dia de hoje, o Opera Mundi fez uma publicação confusa intitulada: “Alberto Fernández não é Ciro Gomes”.  O título é óbvio. Alberto não é Ciro, Argentina não é Brasil, banana não é maçã, prisão injusta não é inocência. Essas afirmações são bastante óbvias e educam pouco politicamente. Precisamos tentar ser mais profundos em compreender as conjunturas e as realidades políticas que nos cercam.

O que de fato podemos concluir dos resultados eleitorais nas primárias argentinas é que Cristina Kirchner compreendeu que para vencer o projeto neoliberal que mais uma vez destrói seu país, ela precisava de um grupo amplo, e que seu nome não poderia fazer frente a tudo isso. O nome seria Alberto Fernandez. E a frente seria uma Frente de Todos.

Projeto personalista de verdade foi o projeto que até praticamente o início das eleições fraudou a opinião pública apresentando uma candidatura inelegível, e inclusive com propagandas eleitorais relacionando afirmando que “Haddad é Lula”. Cristina quer a unidade em torno da nação, a cúpula do PT quer a unidade em torno de Lula.

Ademais, o Opera Mundi tenta envernizar a sua panfletagem com três aspectos que diferenciam Alberto Fernandez de Ciro Gomes. 

  • Alberto Fernandez foi fiel quando foi Ministro de Kirchner – Ciro não foi? Alguém tem que explicar para o Opera Mundi a tamanha gratidão e lealdade de Ciro frente ao Ministério da Integração Nacional no Governo de Lula.
  • Alberto nunca teve projeto personalista e nunca concorreu a nenhum cargo no executivo – Então só podemos agora apoiar Dilmas? Não faz muito sentido, mas parece que o Opera Mundi é avesso a apoiar quem já foi candidato a alguma coisa.
  • Alberto é um crítico do lawfare – Em algum momento Ciro apoiou o lawfare? Ciro foi extensivamente desgastado por atacar a injustiça do projeto e ao mesmo tempo criticar a postura de Lula e do Partido dos Trabalhadores frente aos escândalos de corrupção que se repetiram ano a ano desde o mensalão. De longe, realmente é mais fácil para Alberto ser crítico do lawfare. Se ele estivesse perto, talvez ele soubesse diferenciar lawfare de irresponsabilidade política.

Além disso, o Opera Mundi erra em apresentar Alberto como um político Kirchnerista. Alberto tem sim chances concretas de transformar a Argentina, mas dificilmente pela via do Kirchnerismo. E essa foi a genialidade de Cristina Kirchner. Alberto se apóia, com o apoio de Cristina, no Partido Justicialista.

É na tradição histórica de luta pela libertação do povo nacional construída por Perón na década de 40, que há muito tempo se desconectou do personalismo. Essa foi a leitura genial de Cristina Kirchner. E é essa leitura que a cúpula do Partido dos Trabalhadores não teve a capacidade de fazer. Nem agora, ao olhar para a Argentina, parece conseguir.

Entre o hegemonismo derrotado, e a vitória de “aliados do campo progressista”, quem não plantar a primeira opção só colherá derrotas. O Opera Mundi tem razão: Alberto não é Ciro, mas mais importante que isso, o que eles esquecem de dizer é que Cristina definitivamente não é Lula. 

Assistam o vídeo abaixo que mostra bem o patriotismo de Cristina Kirchner:

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