14 anos sem Brizola: o bastão do trabalhismo de Leonel a Ciro

Brizola e o trabalhismo

Há quatorze anos, o Brasil se despedia de uma de suas últimas resistências à ditadura militar: Leonel de Moura Brizola, o gaúcho que governou o Rio de Janeiro, deixava-nos com uma nação por reconstruir sem nunca ter o privilégio de levar à Presidência da República seu projeto trabalhista. Suas ideias, porém, seguem atualíssimas, como seguem as denúncias que fazia ainda em 1989.

“Se está aí alguma coisa que possamos cortar dos ricos, devemos cortar, tranquilamente! Podemos cortar para dar para as crianças! Vamos combater a sonegação neste país! Vamos tratar de fazer as economias necessárias para jogar grandes massas de recursos por aí! […] Eu temo que (o) dinheiro vá pro Banco Central! Acaba tudo no Banco Central! Este país é perverso! Isso acaba no bolso dos empresários! Dos ladrões deste país! Podem crer, este é um país roubado! Quem está sendo roubado são as crianças desse país! Eu fico indignado quando eu vejo este panorama! Esta desumanidade, e gente apodrecendo de amontoar dinheiro associada com negócios internacionais! Este país não sairá deste problema, enquanto não adquira vergonha!”

A colocação acima pertence ao próprio, que detinha ainda os títulos de sucessor de fato do ex-presidente João Goulart e real herdeiro do PTB de Getúlio Vargas. Perdendo a legenda numa manobra do general Golbery do Couto e Silva, que já foi acusado desde então de lutar para gestar uma “liderança anti-Brizola” no fim dos anos 1980, o ex-governador de dois estados diferentes (Brizola governou tanto o RS quanto o RJ) se viu obrigado a fundar o Partido Democrático Trabalhista, sigla que hoje abriga o pré-candidato Ciro Gomes.

Brizola é um raro caso de homem que esteve sempre à altura do papel que a história lhe conferiu. Tanto enquanto o golpe de 1964 se consolidava quanto quando voltou do exílio, o líder teve acima do próprio interesse ou dos interesses de terceiros o interesse nacional.

Não por menos, mesmo sendo, por mérito e por papel desempenhado na história, o grande merecedor do posto de Presidente da República em 1989 (Brizola já tinha sido governador de dois estados, prefeito, deputado federal, deputado estadual, esteve ao lado de Jango quando o golpe de 1964 aconteceu, foi aquele que se dispôs a pegar em armas em pleno Palácio do Piratini quando o golpe se construía…), baixou sua cabeça em 1998 e aceitou a posição de vice-presidente na chapa do então candidato Luis Inácio Lula da Silva (o “sapo barbudo”, como lhe apelidou Brizola), que até então só tinha sido deputado federal e líder sindical, mas que poderia ser aquele que conectaria a geração trabalhista – exilada e motivadora do golpe de 1964 – e a geração pós-ditadura que resistiu, separadas por vinte anos.

Brizola, porém, nunca ocupou o posto que, alguns argumentam, lhe era historicamente de direito. Sua última eleição à presidência foi em 1994.

Há entrevistas do mesmo, desanimado, falando que os 20 anos de hiato democrático que a ditadura impôs ao Brasil complicaram a comunicação entre uma geração nascida na ditadura e uma exilada. Ainda assim, o próprio ficou de fora do segundo turno das eleições de 1989 por margem minúscula: 500 mil votos o impediram de disputar com Fernando Collor de Mello.

Até sua morte, nunca deixou de denunciar os males que o neoliberalismo que passou a assombrar o Brasil dos anos 1990 até hoje – ininterruptamente – estava e continua fazendo ao país. Na última eleição presidencial em que viveu, porém, Brizola passou o bastão do trabalhismo a um outro senhor que costuma se colocar à altura do posto que a história lhe confere e que liderou a Frente Trabalhista de 2002.

2002: passando o bastão

Ciro Gomes era o nome deste senhor que receberia a missão de representar o trabalhismo. Uma liderança que, como Brizola, abdicou de um legítimo papel que lhe era de direito por duas vezes em nome do maior interesse nacional. Ciro havia sido candidato à presidência em 1998 e em 2002, ambas as vezes pelo PPS.

Convidado pelo vencedor do pleito de 2002 a comandar o Ministério da Integração Nacional, rompeu com seu partido (que insistia em ser oposição ao presidente eleito) e aceitou servir a este que poderia ser a nova maior liderança da esquerda latino-americana: o primeiro presidente metalúrgico.

Era apenas natural que qualquer pessoa que se considerasse progressista apoiasse o aparente triunfo das classes mais necessitadas ao posto máximo da República. Assim Ciro fez, e viu, em 2005, as garras e dentes do golpismo que concluiria seus objetivos de encontrar atalhos para o poder apenas 9 anos depois.

Em 2006, Ciro abriu mão de sua candidatura à presidência e aceitou ser deputado federal da base governista pelo PSB. Mas estava decidido: 2010 era a hora de suceder este que outrora compusera chapa com o saudoso Brizola.

O mundo acompanhava a ruína que o neoliberalismo começava a legar de forma mais grave aos países: a crise financeira de 2007-2008 ameaçava o planeta e anunciava o esgotamento de um modelo econômico.

Apesar de o momento clamar e da urgente necessidade que o país tinha de compreender do que se tratam e a que servem tanto os interesses nacionais (aparentemente sepultados com a memória de Leonel Brizola) quanto de que forma se manifestam “interesses estrangeiros“, Ciro se viu obrigado a abrir mão do papel que deveria desempenhar em detrimento da unidade e da candidatura da primeira mulher presidenta.

Assim o fez, e apoiou, com todas as contradições que noutro momento Leonel precisou engolir (e ainda mais algumas) a eleição da presidenta Dilma Rousseff, que também tinha raízes brizolistas. Era, mais uma vez, a ingestão de um certo anfíbio, esperando-se que fosse obrigada também a elite a engolir com maior desgosto o mesmo anfíbio por uma terceira vez.

Afastado da política, Ciro chegou a desempenhar, vez ou outra, papeis estratégicos essenciais, como quando esteve a frente da Secretaria da Saúde do estado do Ceará, mas retirou-se temporariamente da vida pública quando presidiu a Transnordestina e dirigiu a Companhia Siderúrgica Nacional.

Logo chegou a quarta vez de engolir a vontade do “sapo barbudo”. Com ela, simbolicamente, chegou a conversão oficial de Brizola em “herói da Pátria” pela presidenta reeleita. Posição muito mais que merecida.

Chegou, junto da quarta vez, uma ameaça que Ciro denunciou de prontidão nas palavras: ou a Dilma coloca limites ou ela cai, referindo-se às intenções do ex-deputado federal Eduardo Cunha de chegar à Presidência da Câmara e das práticas de achaque de seus pares.

Na voz de seu irmão, Cid Gomes, então Ministro da Educação, ecoaram no Congresso as denúncias de que ali, no santuário da democracia, estavam umas centenas de achacadores e chantagistas, usurpadores do poder nacional.

Ciro, perante a nova ameaça que se sobrepunha ao país conforme se tornou real o risco de golpe (um impeachment frágil que daria posse a um vice-presidente movido por interesses mesquinhos como os de “estancar a sangria“), afastou-se de seu cargo na CSN e saiu Brasil afora a denunciar isto que hoje podemos admitir ter sido um golpe motivado por interesses corporativistas contra a vontade popular.

Se fosse 1961, talvez tivéssemos uma nova Campanha da Legalidade, como foi a liderada por Brizola para garantir a posse de Jango. Não foi o caso. Os brasileiros e as brasileiras que entenderam do que aquilo se tratava tiveram que se contentar com as denúncias verbais de que ali se perpetuava uma injustiça e uma ilegalidade que maltrataria ainda mais um país já maltratado.

Consolidou-se a denúncia dos irmãos Ferreira Gomes. Pouco importam os porquês agora. Importa que o conjunto da obra permitiu que isso acontecesse e se impusesse ao Brasil uma continuação direta do que parecia ter acabado em 2002. Tamanha a fragilidade do modelo econômico vigente.

A indústria nacional, hoje, já representa menos que 15% do PIB, tendo representado, entre 1980 e 1990, até 35%. O que pensaria Brizola, herdeiro direto do PTB de Vargas, que revolucionou a indústria nacional? Apenas teria mais segurança de que em 2002 esteve ao lado certo e que hoje, 16 anos depois, existe, mais uma vez, a chance de o Brasil mudar radicalmente a forma como concebe a si próprio.

2018: Ciro e o PDT

Seguramente, o líder Brizola, que tantas vezes aceitou papel menor que o que lhe era de mérito, está honrado na trajetória de Ciro Gomes, o último candidato à presidência apoiado pelo fundador do PDT.

Hoje o cearense eliminou o meio-termo: concorre pelo próprio PDT, revigorando forças que pareciam exauridas com a morte de Brizola. Não é à toa que Ciro, já em 1996, escreveu, com Mangabeira Unger, um livro chamado “O próximo passo: uma alternativa prática ao neoliberalismo”.

O mesmo neoliberalismo que Brizola denunciava desde os anos 1980 com o mesmo Mangabeira que assessorou Brizola em suas últimas eleições presidenciais, em 1989 e 1994.

Tanto Ciro quanto Leonel compartilham da mesma enfática defesa da soberania nacional, questão central para se entender os males impostos ao Brasil. Ambos erguem a voz ao falar do desequilíbrio desumano que é imposto à população brasileira, que ceva os bolsos dos barões a troco da humilhação dos mais pobres. Ambos, acima de tudo, entendem algo que o Brasil precisa entender: não há desenvolvimento sem soberania.

Não há soberania sem uma liderança que entenda que o sistema internacional está repleto de interesseiros e de forças colonialistas que pouco se importam com o destino das nações de terceiro mundo, dispondo-se a submetê-las à pior sorte possível se necessário for para a manutenção do poder de minorias organizadas.

Sempre denunciaram também que, infelizmente, mesmo as elites nacionais estão submetidas a este pensamento vil e antinacional, pois sequer se enxergam como brasileiras.

Enfim, ambos admitem algo que muitos se negam a admitir, mesmo sabendo: que a plutocracia tem interesses antinacionais flagrantes, pois está também no cerne da questão o fato de existirem nações e Estados no sistema internacional, legando-se a alguns posição inferior à dos demais. Ciro e Brizola nunca titubearam ao denunciar esses interesses, frequentemente alinhados ao rentismo parasitário. Não aceitam que o Brasil exerça um papel submisso.

Por essas e outras, Ciro é o líder natural a suceder Brizola e o trabalhismo que outrora pautou a defesa dos interesses nacionais em detrimento do parasitismo financeiro a que alguns preferem sucumbir e entender como “parte irremovível da realidade”.

“Se eu tirar a despesa financeira (do cálculo orçamentário), eu não discuto ela. Vou discutir, no lombo do povo, os gastos com saúde. Deixa que o nosso povo morra, como mosca, nos hospitais, tratado com indignidade, que isso pode. Mas o banqueiro não pode deixar de ter um lucro exorbitante como está tendo hoje! Espera um pouquinho… a economia toda indo pro vinagre, e cinco bancos dominam 85% (das operações de crédito)! Eu não quero ser presidente se não for para equilibrar as coisas!”

A frase acima poderia facilmente ter sido pronunciada por Brizola, mas é de Ciro. Não há, no Brasil de hoje, uma liderança mais qualificada para esta sucessão que já vem sendo adiada há décadas.

Até porque, se tem algo que a história nos demonstra, é que tanto Ciro quanto Brizola se provaram mestres na arte da paciência e do aguardo pelo momento adequado.

Como sabemos, não há nada mais forte que a ideia cujo tempo chegou. E o tempo de Brizola e Ciro chegou.

 

Deixe uma resposta

um × dois =