Pilar dos ataques a Ciro Gomes na mídia

O tempo passa rápido e nossa percepção da sua passagem muda muito ao longo da vida. No dia do primeiro aniversário de uma criança, aquele ano vivido concentra todas as suas experiências até aquele momento. Tudo foi novidade! Das dores ao espanto observando o movimento das próprias mãos. No dia que completa 2 aninhos, o ano anterior representa metade da vida do aniversariante. Contemplar as mãos se mexendo não é mais algo tão interessante. Agora ele pode andar! Veja que maravilha! Com 3 anos, um terço da vida transcorreu naquele ano anterior. A experiência vai se adensando e as novidades, se diluindo aos poucos. Imagina no dia que completa 60 anos de idade?! O ano anterior representa a ínfima fração de 1/60 da sua vida inteira. Já se andou muito por aí, viu de tudo e de todos nos 59 anos que precederam a data. Provavelmente, aquele foi um ano de poucos espantos e muitas repetições. Aborrecidas repetições que aproximam o passado ao embaralhar as experiências vividas.

Estranho como tudo fica parecendo que foi ontem. Parece que foi ontem que o ser humano chegou à Lua. Foi ontem que ganhamos o tricampeonato mundial. Ontem mesmo a emenda das eleições diretas foi rejeitada. A poderosa União Soviética era eterna, até ontem. O revolucionário filme Matrix estreou nos cinemas ontem mesmo, há exatos 19 anos! Foi outro dia que vi no cinema meu personagem preferido desse filme, Merovingian, proferindo uma miríade de palavrões em francês e dizendo que xingar em francês era como “limpar a bunda com seda”. Parece que foi ontem que ri dessa cena vista há tantos anos.

Esses dias me lembrei vivamente dela ao ler uma matéria no jornal Le Monde. O texto descrevia o perfil dos principais candidatos à presidência do Brasil em 2018. No fim, havia dois parágrafos sobre o Ciro Gomes, l’exalté. No primeiro, uma frase do exaltado candidato consternado pela condenação do seu “amigo” Lula (aspas do “jornal”), seguida da pergunta: “Lágrimas de crocodilo?” – o que revelou a internacionalidade da expressão idiomática e da pauta jornalística.

No segundo parágrafo, o foco não era mais no amigo, mas no principal inimigo de Ciro Gomes, que seria ele mesmo, de acordo com a matéria. Não deixando de registrar o recente “escândalo da testosterona”, que escandalizou mais os endocrinologistas que a própria candidata à presidência, o jornal voltou a 2002 para encontrar o escândalo dos escândalos – a famosa frase do papel da esposa na eleição. Reproduzo em francês para verem como Merovingian tinha razão a respeito do idioma e da suavidade da limpeza com seda, em vez de papel-jornal: “Ma femme a un des rôles les plus importants, qui est de coucher avec moi. Coucher avec moi est un rôle fondamental.”

Parece que foi ontem. Os 16 anos que nos separam do dia em que essa frase foi dita se encurtam pela constante repetição ao longo dessa década e meia. Repetidas vezes também ouvimos a explicação do contexto e o relato do pedido de desculpas. Ouvimos sobre as tramoias da campanha opositora na época, com sua equipe de psicólogos elaborando a estratégia de desmonte emocional do candidato-alvo. E, principalmente, ouvimos as motivações por trás do estardalhaço feito em torno dessa frase pinçada para desconstruir uma campanha que ameaçava os interesses da banca.

Caetano Veloso trouxe a explicação psicológica: inconscientemente, Ciro sabotara a própria campanha, pois teria percebido o tamanho das interdições ao enfrentamento que propunha comparado ao tamanho das forças que o apoiavam. Numa entrevista a José Trajano, em 2017, na qual relata a ajuda do amigo tropicalista em sua análise, Ciro Gomes também fez uma revelação polêmica, que, incrivelmente, não virou escândalo. Convidado para jantar na casa de Olavo Setúbal em 2002, Ciro teria ouvido a seguinte frase do dono do Itaú: “Para ganhar a eleição, você vá lá e diga o que quiser. Mas, se você ganhar, volte aqui para se entender conosco, senão a gente lhe derruba”.

Autossabotagem é uma boa explicação, sem dúvida, mas não satisfaz a curiosidade da imaginação histórica. Aquela que tanto irrita os historiadores, aguçada por perguntas do tipo “e se”: E se a frase não tivesse sido dita?

Ciro Gomes, ao lado de Leonel Brizola na Frente Trabalhista, em 2002, enfrentava na eleição convidados mais afáveis nos jantares oferecidos pela família Setúbal. A frase dita, e repetida à exaustão em toda a mídia, converteu o líder nas pesquisas, que atacava os juros em cada oportunidade que tinha, no maior machista da história do Cosmo.

Nova eleição, nova candidatura com chances reais de vitória, novas promessas de combate à banca e a velha estratégia que reaparece, sincronizando a pauta da mídia. Nada de plano de governo, auditoria da dívida pública e reindustrialização. Primeira parte da entrevista: “fale sobre Lula”. Segunda parte, normalmente perguntado por uma jornalista em tom grave: “fale sobre la femme qui ne se réveille jamais.”

Eis o que teria ocorrido se a frase não tivesse sido dita: encontrariam outra coisa. Simples assim. Questionariam seus rendimentos, sem direito a resposta, apresentariam mais frases tiradas de contexto, inventariam estórias, espionariam a vida dos familiares, chantageariam, ameaçariam, fraudariam documentos, urnas, dariam golpes jurídicos, militares, envenenariam, sabotariam carros e aviões. A política na América latina possui regras bem definidas.
 

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