Ciro Gomes é antissemita?

No dia 21/04/2019, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) anunciou que processaria Ciro Gomes por “antissemitismo”. Em decorrência disso, o ex-ministro passou a ser alvejado pelo rótulo de “antissemita” pela grande imprensa.

Será que a acusação se sustenta?

Como veremos ao longo desta publicação, a afirmação foi tirada de contexto na acusação e, para agravar o caso, encontra-se fora de um contexto maior ainda dentro da própria entrevista, que não foi publicada com parte da resposta dada por Ciro Gomes a dois jornalistas: um do Estado de São Paulo e um do Huffpost Brasil.

A acusação: Ciro Gomes antissemita

CIRO GOMES: “Bolsonaro diz a grupos de interesse o que eles querem ouvir. Por exemplo, para os amigos dele aí, esses corruptos da comunidade judaica, que acham que, porque são da comunidade judaica, têm direito de ser corrupto. Corrupto, para mim, não interessa se é curdo ou cearense. Corrupto é corrupto, ladrão é ladrão. Ele disse para eles que ia transferir a embaixada do Brasil [para Jerusalém] a custo de grana para campanha. Depois chegou lá dizendo que não vai mais.”

A frase, tirada de contexto e mal interpretada, soa como uma afronta à “comunidade judaica” como um todo.

Na verdade, Ciro Gomes dá continuidade a uma resposta dada anteriormente a um repórter do Estadão, que lhe indagava acerca de já existentes acusações de ser “antissemita”, estas a Ciro atribuídas por figuras descontentes com suas críticas à mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

O contexto

A resposta pinçada como pretexto para acusar Ciro Gomes de “antissemita” foi dada a uma pergunta sobre a avaliação de Ciro Gomes sobre o futuro do país. Confira abaixo, mas lembre-se de que ela foi dada após outra resposta importante para se contextualizar o teor de sua frase que não se encontra na entrevista. Ao fim desta publicação, você tem acesso a a um vídeo com o áudio e à pergunta.

HUFFPOST: Estamos vendo agora a pressão dos caminhoneiros em relação ao preço dos combustíveis, as construtoras ameaçando deixar o programa Minha Casa, Minha Vida, o embate entre Executivo e Congresso. Como o senhor avalia o futuro econômico do País?

CIRO GOMES: Lamentavelmente, eu imagino que o Brasil caminha a passos muito acelerados para uma grande confusão. Não estou vendo golpe, não estou vendo impedimentos. Os políticos sabem que cometeram um erro grave com o impedimento da [ex-presidente] Dilma [Rousseff], não vão cometer o mesmo erro agora. Vão tentar tutelar o Bolsonaro com essas coisas de um parlamentarismo de fato, que vai constrangendo, e os militares, ainda nos bastidores, vão tentar moderar.

Mas é orgânico ao Bolsonaro, na sua compreensão de vida, essa completa falta de comprometimento com qualquer coisa séria.

Na campanha você pode fazer isso porque, infelizmente, a grande mídia brasileira tem lado, ela não examina criticamente as coisas.

Bolsonaro entregou uma cópia do kit gay da mão do William Bonner no Jornal Nacional e a Rede Globo nem para fazer por 30 segundos uma investigação se aquilo existia ou não e dizer que aquilo é falso. Não fez. Evidentemente a Globo queria a eleição de qualquer um, menos eu o [candidato do PT Fernando] Haddad. Tinha que ser qualquer um. Não dando com um, “vai tu”.

Agora Bolsonaro diz aos grupos de interesse o que eles querem ouvir. Por exemplo, para os amigos dele aí, esses corruptos da comunidade judaica, que acham que, porque são da comunidade judaica, têm direito de ser corrupto. Corrupto, para mim, não interessa se é curdo ou cearense. Corrupto é corrupto, ladrão é ladrão. Ele [Bolsonaro] disse para eles que ia transferir a embaixada do Brasil [de Tel Aviv para Jerusalém] a custo de grana para campanha. Depois chegou lá dizendo que não vai mais porque ele pensou que era, mas não era.

Disse para os caminhoneiros que ia congelar o diesel e disse para o mercado que ia deixar a política de preços a mesma coisa. Só que isso se faz para demagogia, sem imprensa e sem ir ao debate. Para governar, não dá. Você vai ver a confusão que vem nesse ponto “petróleo e caminhoneiros”.

Você encontra a entrevista completa concedida ao jornal aqui.

Apesar disso, não se encontra na entrevista à HuffPost a primeira pergunta, que foi feita por um repórter do Estadão. No fim desta publicação, você tem acesso ao áudio completo da parte da entrevista que gerou o desentendimento.

A resposta “censurada” de Ciro Gomes

Antes de Ciro Gomes responder à pergunta feita pelo HuffPost, ele foi perguntado por um jornalista do jornal O Estado de São Paulo sobre acusações de ser “antissemita” por críticas à mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

Após essa resposta, você escutará a resposta dada ao repórter da HuffPost, trecho que foi recortado e dado como motivação do processo movido pela Conib.

ESTADÃO: queria que você comentasse a reação da comunidade [judaica sobre a declaração de que Ciro seria antissemita pelas críticas a Bolsonaro sobre a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém].

CIRO GOMES: É o seu editor que mandou fazer [essa pergunta] e evidentemente isso já deve ser por influência corrupta de uma fração dessa comunidade que, como qualquer comunidade, também tem corruptos. Minha palavra não tem nada de antissemita. Conheço a tragédia, conheço o que aconteceu, tenho absoluta solidariedade e você não encontrará um traço na minha extensa vida pública que não seja de respeito. Isto não quer dizer, muito menos vou aceitar a imposição, de que um bando de vagabundo que, por ter muito dinheiro, começa a financiar campanhas no Brasil de um canalha como Bolsonaro. Depois vão achar ruim porque eu falo o que falo. Então, engula, porque vou falar de novo.

A pergunta: Ciro Gomes é antissemita?

Analisados o contexto e a resposta de Ciro Gomes, não parece adequado acusá-lo de “antissemita” por um ataque destinado a uma parcela da comunidade judaica, por ele definida como “corrupta”.

“Os corruptos da comunidade judaica” não diz respeito à comunidade judaica como um “todo”, e sim à parcela especificamente corrupta referida por Ciro no início de sua primeira resposta, que perguntava o que Ciro achava sobre o rótulo de “antissemita”.

Assim, soa como um engano a acusação de que seu comportamento seja “antissemita”, já que, como diz o próprio ex-governador, “existem corruptos em qualquer comunidade”, e a parcela corrupta da comunidade judaica é o alvo de sua fala; não a própria comunidade.

Na verdade, Ciro Gomes é antisistema

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